Em comum tinham apenas o “jota” grafado no início dos nomes. Assim era uns dez anos antes, quando tiveram o primeiro contato. Na época o rapaz nem sabia o que queria ser quando crescer. A moça ensaiava os primeiros passos na profissão. Porém, não trocavam muitas palavras. Nada além de “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. E assim foi por volta de três pares de anos.
Passado o período tornaram-se colegas de profissão. Cada qual no seu emprego. Tinham a mesma formação. Trabalhavam em setores diferentes, ainda que correlacionados. A menina abastecia com informações empresas do gênero em que ele labutava. Ainda assim, os contatos ficavam no “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. Acrescidos de “alguma novidade por ai?”, de ambos os lados, praticamente. Por motivos meramente profissionais, os dois começaram se aproximar. Coisas de trabalho.
Deve ter sido motivado por algum grande acontecimento na empresa em que a moça dava o sangue. Ele cumpria com suas obrigações no local de trabalho. Por força da labuta, passaram a se falar com mais freqüência: “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. “Acha que dá para mandar aquele material até terça? Conseguiu marcar com aquele professor de química?”.
Em meio aos assuntos, descobriam um pouco mais sobre um e outro. Assim, guardavam para si “Ele é bacana, inteligente”, pensava a mocinha. “Ô lá em casa”, suspirava o guri. Porém, quando se encontravam em ocasiões de trabalho permanecia o rito “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. Foi durante uma conversa com um amigo em comum que os pensamentos contidos foram externados. O coleguinha tratou logo de fazer às vezes de cupido. Ou pombo correio. Vai saber.
Numa determinada festa, encontraram-se. “Oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. E ficaram um a cercar o outro. Ambos aguardavam um ato, uma palavra que confirmasse o que o bocudo dissera. Passada a tensão e, lá pelas tantas, tiraram aquela história toda a limpo. Beijaram-se, trocaram confidências, números de telefones particulares e promessas de “me liga”, “vamos combinar alguma coisa”.
Passado um semestre, conversam menos durante o trabalho e mais em seus momentos de vida privada. Os papos são alongados, ainda que mantenham as saudações de uma década, acrescido de um vocábulo: “Oi, amor”, “oi”, “tudo bem, amor?”, “tuuudo, môr”.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Pompeu, a lenda
Talvez pela proximidade entre as duas palavras, boa parte acredita que legendário tem a ver com legenda. Nada disso. Legendário é uma capacidade, uma aptidão, para poucos. Antes do sujeito vir ao mundo dos vivos brilhar e causar, papai do céu tasca o carimbinho. Legendário é a potenciabilidade do cidadão em se tornar uma lenda. Pois esta é uma história sobre uma delas. Hoje, dado o remoto tempo, uma lenda urbana mantida viva pela lembrança de uma meia dúzia.
Desde seus primeiros aniversários, Pompeu parecia um rapaz como todos os outros. Quando garoto queria ser ponta esquerda de um famoso clube do futebol, na época em ascensão. Admirado em sua terra natal, conquistaria o mundo e seus dólares. Vestiria a amarelinha. Fariam carreatas na cidade em que cresceu quando viesse passar suas férias. Porém, como todo sonho de menino, perdera o interesse. Destinava seus esforços em adquirir conhecimento e ser um cidadão direito.
E assim fora por um longo período. Até, certo dia, cansado da monotonia à espreita, decidiu que faria as coisas diferentes. Queria o inusitado. Causar mesmo. Sem fazer muito esforço, apenas dando vazão aos devaneios, cativava colegas. Juntava amigos. Era o cara da turma. Nas festinhas, enchia a própria latinha sem medo. Mamava como um cordeiro desgarrado. Assim, colocava em prática o que lhe ocorria. Passou a ser atração e sinônimo de diversão garantida ao subir nos palcos espalhados pela geografia do entorno.
Nas formaturas universitárias, só esperava a chamada para congratulação de ex-acadêmicos em cima do “stage” ao som de “Amigos para Siempre”. Estava ele, ditando o ritmo da banda. Puxando as coreografias inusitadas. Levando ao delírio a ror. Não tinha erro. No show do grupo local ou de uma bandinha dos arredores, lá estava ele. Animado, coreografado e mamado. Assim era Pompeu.
O assédio era intenso. Os seguranças já o conheciam. Dizem que umas duas empresas distribuíam fotografias do rapaz entre seus profissionais para coibir sua ação. Era tido como “O Impostor”, do Pânico na TV, daquele tempo. Burlava sistemas e tava lá no alto. Causando. Foi quando tentou o seu golpe mais agudo. No show de um cantor popularesco em uma cidade vizinha. O interprete, na época, andava em alta. Sua música era a mais tocada nas rádios com programação dedicada as domésticas, vigias e porteiros.
Na determinada hora e local, lá estava ele. As primeiras dancinhas rolavam e ele alongava. Na hora do bis era certo que soaria a canção contagiava corações, matinês e preferências. Soaram os primeiros acordes e foi na turma do gargarejo. Na hora do refrão, no vacilo da linha defensiva, lá estava ele. Ensinando o ídolo de muitos que aquela dança era para poucos. Foi ovacionado e tirado de sobre o palco.
Parcos registros fotográficos mantém a prova cabal. O assunto tomou conta da região sul de todo o globo terrestre. Editores estampavam manchetes e reclamavam da falta de imagens de Pompeu. Os chegados prepararam uma homenagem. Destituída quando saiu um decreto municipal, publicado em forma de edital. O prefeito em pessoa entregaria a chave da cidade ao autor da façanha. Quem sabe até ofertaria uma cadeira numa repartição. Mas desde então, resolveu deixar as estripulias de lado. No dia do retorno, desviou a atenção dos batedores da Polícia Militar. Entrou pelos fundos. Deixou o circo armado a esperar até que cansassem e desistissem daquela homenagem.
E até hoje, numa formatura universitária, num show de um artista apreciado, uns se relembram com lágrimas nos olhos. Ainda que o sorriso esteja no rosto. Outros ao ouvir a canção “Festa no apê”, levantam-se, colocam os braços para trás, com uma mão segurando a outra, sobre a lomba das nádegas, e aguardam até o fim da melodia em respeito à lenda que ficou para trás sem deixar o legado ou herdeiros.
Desde seus primeiros aniversários, Pompeu parecia um rapaz como todos os outros. Quando garoto queria ser ponta esquerda de um famoso clube do futebol, na época em ascensão. Admirado em sua terra natal, conquistaria o mundo e seus dólares. Vestiria a amarelinha. Fariam carreatas na cidade em que cresceu quando viesse passar suas férias. Porém, como todo sonho de menino, perdera o interesse. Destinava seus esforços em adquirir conhecimento e ser um cidadão direito.
E assim fora por um longo período. Até, certo dia, cansado da monotonia à espreita, decidiu que faria as coisas diferentes. Queria o inusitado. Causar mesmo. Sem fazer muito esforço, apenas dando vazão aos devaneios, cativava colegas. Juntava amigos. Era o cara da turma. Nas festinhas, enchia a própria latinha sem medo. Mamava como um cordeiro desgarrado. Assim, colocava em prática o que lhe ocorria. Passou a ser atração e sinônimo de diversão garantida ao subir nos palcos espalhados pela geografia do entorno.
Nas formaturas universitárias, só esperava a chamada para congratulação de ex-acadêmicos em cima do “stage” ao som de “Amigos para Siempre”. Estava ele, ditando o ritmo da banda. Puxando as coreografias inusitadas. Levando ao delírio a ror. Não tinha erro. No show do grupo local ou de uma bandinha dos arredores, lá estava ele. Animado, coreografado e mamado. Assim era Pompeu.
O assédio era intenso. Os seguranças já o conheciam. Dizem que umas duas empresas distribuíam fotografias do rapaz entre seus profissionais para coibir sua ação. Era tido como “O Impostor”, do Pânico na TV, daquele tempo. Burlava sistemas e tava lá no alto. Causando. Foi quando tentou o seu golpe mais agudo. No show de um cantor popularesco em uma cidade vizinha. O interprete, na época, andava em alta. Sua música era a mais tocada nas rádios com programação dedicada as domésticas, vigias e porteiros.
Na determinada hora e local, lá estava ele. As primeiras dancinhas rolavam e ele alongava. Na hora do bis era certo que soaria a canção contagiava corações, matinês e preferências. Soaram os primeiros acordes e foi na turma do gargarejo. Na hora do refrão, no vacilo da linha defensiva, lá estava ele. Ensinando o ídolo de muitos que aquela dança era para poucos. Foi ovacionado e tirado de sobre o palco.
Parcos registros fotográficos mantém a prova cabal. O assunto tomou conta da região sul de todo o globo terrestre. Editores estampavam manchetes e reclamavam da falta de imagens de Pompeu. Os chegados prepararam uma homenagem. Destituída quando saiu um decreto municipal, publicado em forma de edital. O prefeito em pessoa entregaria a chave da cidade ao autor da façanha. Quem sabe até ofertaria uma cadeira numa repartição. Mas desde então, resolveu deixar as estripulias de lado. No dia do retorno, desviou a atenção dos batedores da Polícia Militar. Entrou pelos fundos. Deixou o circo armado a esperar até que cansassem e desistissem daquela homenagem.
E até hoje, numa formatura universitária, num show de um artista apreciado, uns se relembram com lágrimas nos olhos. Ainda que o sorriso esteja no rosto. Outros ao ouvir a canção “Festa no apê”, levantam-se, colocam os braços para trás, com uma mão segurando a outra, sobre a lomba das nádegas, e aguardam até o fim da melodia em respeito à lenda que ficou para trás sem deixar o legado ou herdeiros.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Esculachos de família
Já com a idade avançada, a senhora dava sinais que não tinha mais a audição tão apurada como outrora. Estava ficando meio surda. Além disso, com certa periodicidade entrava em conflito com a filha mais velha, que morava na casa ao lado. Para poder cuidar, ainda que distante, de dona Vilma. Tarefa difícil para a filha, que em alguns momentos lhe faltava paciência por causa das manias da mãe. Acabava-se em discussões em tom alto com a velhinha.
Briga familiar para uns, motivos de gargalhadas dos moradores das casas vizinhas. Muitas vezes, o bate-boca ocorria com cada uma de seu lado do muro. Volume no 10. Com respostas agressivas e outras tantas descabidas. Aos primeiros insultos, os vizinhos iam para janela. Faziam de conta que estavam a verificar se viria chuva, se iria esfriar.
Certo dia, cada uma das mulheres estavam em suas respectivas casas. Dedicavam as horas em tarefas domésticas. E, mentalmente, a planejar os próximos xingamentos para fazer bonito para quando o tempo fechasse. A filha estava por iniciar a lavagem das roupas que enchiam os cestos. A velhinha a lavar a louça do cafezinho com as fagueiras amigas minutos antes.
Do outro lado do muro, a filha de dona Vilma catava cuecas e bermudas do filho e do marido, espalhadas pela casa. Ainda, era necessário pegar as roupas de cama e ela pede ajuda à neta de Vilma, do outro lado da residência, trancada no seu quarto decorado com motivos adolescentes. “Minha filha, vem aqui. Preciso da sua ajuda!”, gritou para que a mocinha escutasse. Do outro lado, com as orelhas cansadas pelo tempo, dona Vilma saiu batendo as tamancas no chão. Furiosa, partiu em direção ao muro. “Sou linguaruda mesmo”, dando início a mais um colossal barraco.
Briga familiar para uns, motivos de gargalhadas dos moradores das casas vizinhas. Muitas vezes, o bate-boca ocorria com cada uma de seu lado do muro. Volume no 10. Com respostas agressivas e outras tantas descabidas. Aos primeiros insultos, os vizinhos iam para janela. Faziam de conta que estavam a verificar se viria chuva, se iria esfriar.
Certo dia, cada uma das mulheres estavam em suas respectivas casas. Dedicavam as horas em tarefas domésticas. E, mentalmente, a planejar os próximos xingamentos para fazer bonito para quando o tempo fechasse. A filha estava por iniciar a lavagem das roupas que enchiam os cestos. A velhinha a lavar a louça do cafezinho com as fagueiras amigas minutos antes.
Do outro lado do muro, a filha de dona Vilma catava cuecas e bermudas do filho e do marido, espalhadas pela casa. Ainda, era necessário pegar as roupas de cama e ela pede ajuda à neta de Vilma, do outro lado da residência, trancada no seu quarto decorado com motivos adolescentes. “Minha filha, vem aqui. Preciso da sua ajuda!”, gritou para que a mocinha escutasse. Do outro lado, com as orelhas cansadas pelo tempo, dona Vilma saiu batendo as tamancas no chão. Furiosa, partiu em direção ao muro. “Sou linguaruda mesmo”, dando início a mais um colossal barraco.
sábado, 25 de julho de 2009
Uva, o fruto proibido
Adão e Eva foram expulsos do paraíso. A historia bíblica todo mundo já ouviu falar. O que pouca gente sabe é que na década de 1950 era a uva o fruto proibido. Obviamente, não tinha as mesmas restrições do que o alimento que dava no pé em que morava uma serpente. Em uma específica época do ano, naqueles tempos, o consumo era considerado pecado. Fruto que rendia oras de penitência após a confissão ao pároco.
Em seus tenros 10 anos, Joaquim não tinha conhecimento do fato. Na década, anos 50, a semana santa já tinha início no final da tarde de terça-feira. Adultos e idosos jejuavam de verdade. Apenas uma refeição por dia em que se consumia o mínimo. Em algumas casas, como a de Quinzinho, as obrigações eram exigidas dos mais jovens. As ruas ficavam vazias. As crianças não podiam brincar. Tédio geral entre a molecada. Ainda, a comunicação entre as pessoas era mínima. Leves e lentos acenos com as mãos e cabeça. Olhares limitados. As conversas tinham um tom quase inaudível e de parcas palavras.
Já na quinta-feira, faminto e entediado, Quim acordara com um desejo incontrolável de comer uvas. De família muito simples e jovial para o trabalho, não tinha um níquel sequer nos bolsos das calças curtas ou guardado em uma caixinha de papelão. Passará a manhã toda sonhando com cachos bem fornidos e repletos de bolinhas adocicadas. Resolvera então tomar uma cédula de uma bolsa desavisada ao alcance de seus olhinhos curiosos e mãos com dedos pequeninos.
Em vistoria pelo recinto, mirara a bolsa da Tia Zezé, que dera o ar da graça há poucos minutos. Foi aumentar o silencioso coro de orações. Sem nenhuma noção do valor de dinheiro, furtivamente abriu o objeto e puxara a primeira cédula à vista. Era uma nota de 20 cruzeiros. Que nos dias de hoje equivaleria algo superior a 100 reais. Partiu para um armazém nas cercanias que se gabava das melhores e mais doces frutas do vilarejo.
Na ponta dos pés e escorado no balcão, mostrou a nota e apontou para as frutas pequenas e rotundas. “Tudo de uvas, senhora”, ordenara Quinzinho à senhora do estabelecimento. A mulher queria saber a finalidade da grande quantidade. “Sua mãe fará doce de uva?”. O menino assentiu. Depois, perguntara pela cesta. Naqueles tempos não existiam sacolas plásticas. Os consumidores eram obrigados a portar de casa o recipiente para acomodar as compras durante o trajeto de volta. Joaquim disse esquecera e que voltaria em breve para consumar a compra. “Traga uma das grandes”, orientou a balconista, sabendo que seria uma compra e tanto. Quiçá, liquidaria o estoque do fruto da venda.
Em alguns minutos ele retornava ao local com uma cesta de palhas de tamanho quase equivalente ao seu. A senhora do estabelecimento enchera o recipiente e Quinzinho subia a ladeira arrastando cachos e mais cachos da fruta predileta com dificuldade e esforço. Encontrou um cantinho no rancho nos fundos da casa e iniciara a comilança, silencioso. Com língua e dentes arroxeados, mais do que satisfeito, minutos depois, percebera que a quantidade do cesto praticamente não alterara. Resolvera ser gentil com os primos mais jovens, que eram forçados a irem até a casa de parentes para não fazerem nada durante os dias santos.
Discretamente, chamara um a um. Instantes após, eram seis ou sete pequenos, todos mais jovens que Quim, ao redor do cesto cheio. O rapaz poderia não saber o valor do dinheiro na época. Mas certamente tinha noção, dado o volume no cesto, que cometera um furto e tanto. Por isso, controlava os priminhos para que não deixassem o local com indícios do consumo de uvas. Muito menos com o fruto em mãos. Pedia para que não fizessem barulho.
Não adiantou muito e a pequena Dorotéia aparecera na sala com uma baguinha na palma da mão, causando espanto aos adultos. Dona Diva, mãe de Joaquim, questionara onde Téia encontrara uvas. A minúscula dedo de seta caguetara o primo. Enfurecida, a prever o meio em que o filho conseguira fundos para adquirir frutas, Diva partiu em busca do rapazinho. Deu de cara com a cesta ainda cheia e a molecada a correr. Joaquim permanecera. Imóvel, imaginava o que poderia lhe ocorrer.
Diva pegou o rapaz por uma das orelhas e levou-o até seu quarto. No recinto havia uma pequena janela para o quintal. Joaquim via a mãe em frente a um marmeleiro. A senhora escolhia uma das varinhas que cresciam na árvore. Selecionava uma poderosa e temida vara de marmelo. Artefato que ainda causa calafrios a alguns que hoje já cruzaram os 50 anos. De posse de uma que julgou melhor, voltou ao interior da residência.
Joaquim suava frio e engolia o choro. Diva aparecera na porta. Tomou o menino e colocou Joaquim de bruços na cama. Sem piedade, puniu o rapaz com golpes fortes da tal vara. A cada estocada, uma nova tira avermelhada emergira da pele clara das pernas do garoto. A senhora deve ter praticado o ato por não mais do que cinco minutos. Joaquim tinha a sensação que estava a receber os golpes por cinco horas.
Diva concluíra a punição exemplar. Esperava que depois daquela lição o filho jamais roubaria bolsas desavisadas e comeria uvas em dias sagrados. Quinzinho estava aos prantos. Magoado. Não lhe doíam as escoriações. Muito menos a vergonha que fatalmente sentiria nos próximos 10 dias, em que os vergões estariam expostos por conta das calças curtas, traje comum da época. O que causava enorme aperto no peito é que não conseguia entender como a mãe teve coragem de aplicar-lhe uma surra monumental daquelas. Em pleno dia santo.
Em seus tenros 10 anos, Joaquim não tinha conhecimento do fato. Na década, anos 50, a semana santa já tinha início no final da tarde de terça-feira. Adultos e idosos jejuavam de verdade. Apenas uma refeição por dia em que se consumia o mínimo. Em algumas casas, como a de Quinzinho, as obrigações eram exigidas dos mais jovens. As ruas ficavam vazias. As crianças não podiam brincar. Tédio geral entre a molecada. Ainda, a comunicação entre as pessoas era mínima. Leves e lentos acenos com as mãos e cabeça. Olhares limitados. As conversas tinham um tom quase inaudível e de parcas palavras.
Já na quinta-feira, faminto e entediado, Quim acordara com um desejo incontrolável de comer uvas. De família muito simples e jovial para o trabalho, não tinha um níquel sequer nos bolsos das calças curtas ou guardado em uma caixinha de papelão. Passará a manhã toda sonhando com cachos bem fornidos e repletos de bolinhas adocicadas. Resolvera então tomar uma cédula de uma bolsa desavisada ao alcance de seus olhinhos curiosos e mãos com dedos pequeninos.
Em vistoria pelo recinto, mirara a bolsa da Tia Zezé, que dera o ar da graça há poucos minutos. Foi aumentar o silencioso coro de orações. Sem nenhuma noção do valor de dinheiro, furtivamente abriu o objeto e puxara a primeira cédula à vista. Era uma nota de 20 cruzeiros. Que nos dias de hoje equivaleria algo superior a 100 reais. Partiu para um armazém nas cercanias que se gabava das melhores e mais doces frutas do vilarejo.
Na ponta dos pés e escorado no balcão, mostrou a nota e apontou para as frutas pequenas e rotundas. “Tudo de uvas, senhora”, ordenara Quinzinho à senhora do estabelecimento. A mulher queria saber a finalidade da grande quantidade. “Sua mãe fará doce de uva?”. O menino assentiu. Depois, perguntara pela cesta. Naqueles tempos não existiam sacolas plásticas. Os consumidores eram obrigados a portar de casa o recipiente para acomodar as compras durante o trajeto de volta. Joaquim disse esquecera e que voltaria em breve para consumar a compra. “Traga uma das grandes”, orientou a balconista, sabendo que seria uma compra e tanto. Quiçá, liquidaria o estoque do fruto da venda.
Em alguns minutos ele retornava ao local com uma cesta de palhas de tamanho quase equivalente ao seu. A senhora do estabelecimento enchera o recipiente e Quinzinho subia a ladeira arrastando cachos e mais cachos da fruta predileta com dificuldade e esforço. Encontrou um cantinho no rancho nos fundos da casa e iniciara a comilança, silencioso. Com língua e dentes arroxeados, mais do que satisfeito, minutos depois, percebera que a quantidade do cesto praticamente não alterara. Resolvera ser gentil com os primos mais jovens, que eram forçados a irem até a casa de parentes para não fazerem nada durante os dias santos.
Discretamente, chamara um a um. Instantes após, eram seis ou sete pequenos, todos mais jovens que Quim, ao redor do cesto cheio. O rapaz poderia não saber o valor do dinheiro na época. Mas certamente tinha noção, dado o volume no cesto, que cometera um furto e tanto. Por isso, controlava os priminhos para que não deixassem o local com indícios do consumo de uvas. Muito menos com o fruto em mãos. Pedia para que não fizessem barulho.
Não adiantou muito e a pequena Dorotéia aparecera na sala com uma baguinha na palma da mão, causando espanto aos adultos. Dona Diva, mãe de Joaquim, questionara onde Téia encontrara uvas. A minúscula dedo de seta caguetara o primo. Enfurecida, a prever o meio em que o filho conseguira fundos para adquirir frutas, Diva partiu em busca do rapazinho. Deu de cara com a cesta ainda cheia e a molecada a correr. Joaquim permanecera. Imóvel, imaginava o que poderia lhe ocorrer.
Diva pegou o rapaz por uma das orelhas e levou-o até seu quarto. No recinto havia uma pequena janela para o quintal. Joaquim via a mãe em frente a um marmeleiro. A senhora escolhia uma das varinhas que cresciam na árvore. Selecionava uma poderosa e temida vara de marmelo. Artefato que ainda causa calafrios a alguns que hoje já cruzaram os 50 anos. De posse de uma que julgou melhor, voltou ao interior da residência.
Joaquim suava frio e engolia o choro. Diva aparecera na porta. Tomou o menino e colocou Joaquim de bruços na cama. Sem piedade, puniu o rapaz com golpes fortes da tal vara. A cada estocada, uma nova tira avermelhada emergira da pele clara das pernas do garoto. A senhora deve ter praticado o ato por não mais do que cinco minutos. Joaquim tinha a sensação que estava a receber os golpes por cinco horas.
Diva concluíra a punição exemplar. Esperava que depois daquela lição o filho jamais roubaria bolsas desavisadas e comeria uvas em dias sagrados. Quinzinho estava aos prantos. Magoado. Não lhe doíam as escoriações. Muito menos a vergonha que fatalmente sentiria nos próximos 10 dias, em que os vergões estariam expostos por conta das calças curtas, traje comum da época. O que causava enorme aperto no peito é que não conseguia entender como a mãe teve coragem de aplicar-lhe uma surra monumental daquelas. Em pleno dia santo.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Xavecos do sexagenário
Pelos mesmos motivos de Lourival (conheça o caso), chegou a vez em que Anderson cortou relações com o festivo vovô. Os presentes eram realmente muito bons. Especialmente para a temporada de frio com o guarda-roupa pouco sortido e de escassas opções para arrefecer as temperaturas em queda do lado de fora. Porém, era difícil conviver com as piadinhas dos colegas de trabalho que testemunhavam os apuros que o sexagenário tarado impunha ao moço. (Não entendeu? Clique aqui.)
Visível era o alívio de Anderson após o basta. Trabalhava até melhor, comentou o colega da escrivaninha da frente. Pobre, velhinho. Perdera mais uma ovelhinha de seu rebanho. Mas não se deixava abalar. Logo retomaria a busca para substituir o rapaz que deixara espaço no estábulo. Partiu para cima de outros funcionários do periódico em que costuma publicar fotografias de amigos “pagantes” e figurinhas “mordíveis”. Os arredores da máquina de cafezinhos voltaram a se tornar território perigosos ao pessoal do sexo masculino.
E foi por lá que o trabalhador do recursos humanos sofreu um tremendo golpe. Quieto, enquanto misturava o leite em pó ao café, viu se aproximar o galante idoso. Tentou fazer de conta que sequer havia percebido o titio na área. Mas o outro não se fez de rogado. Elogiou os cachos capilares do guri. Corado, deu as costas como se nada tivesse ouvido. O festivo imaginava que daqueles arredores poderia angariar algo novo para sua festiva rotina. Tentou um alemão que toma conta das finanças da empresas também. O “pedaço de mau caminho” proferido não surtiu o efeito esperado.
E assim era a rotina do sexagenário quando ia levar suas anotações ao periódico dito maior do sul destas bandas. O velhinho atirava para todos os lados. Diziam até que o desejo era tanto que vez ou outra tascava palavras em mulheres. Respirar já bastava para entrar na mira. E foi numa dessas que Daniel foi surpreendido.
Num dos estreitos corredores do veículo, enquanto rumava para o setor em que um dos colegas de trabalho teria mais informações de um caso em que foi testemunha, deparou-se com o vovô de porte de uma maleta 007 que deveria esconder muita sordidez. O velhinho o encurralou e o interpelou. “Ei, menino. Posso te mostrar uma coisa?”, questionou.
O rapaz fez de conta que era surdo de nascença, mas pouco adiantou. O idoso de gravata borboleta foi logo arrumando o corpo para revelar algo. “Agora não posso. Estou com muita pressa, senhor”, quis despistar. E o vovô ficou por ali, de calças arriadas e choroso com mais uma tentativa frustrada.
Visível era o alívio de Anderson após o basta. Trabalhava até melhor, comentou o colega da escrivaninha da frente. Pobre, velhinho. Perdera mais uma ovelhinha de seu rebanho. Mas não se deixava abalar. Logo retomaria a busca para substituir o rapaz que deixara espaço no estábulo. Partiu para cima de outros funcionários do periódico em que costuma publicar fotografias de amigos “pagantes” e figurinhas “mordíveis”. Os arredores da máquina de cafezinhos voltaram a se tornar território perigosos ao pessoal do sexo masculino.
E foi por lá que o trabalhador do recursos humanos sofreu um tremendo golpe. Quieto, enquanto misturava o leite em pó ao café, viu se aproximar o galante idoso. Tentou fazer de conta que sequer havia percebido o titio na área. Mas o outro não se fez de rogado. Elogiou os cachos capilares do guri. Corado, deu as costas como se nada tivesse ouvido. O festivo imaginava que daqueles arredores poderia angariar algo novo para sua festiva rotina. Tentou um alemão que toma conta das finanças da empresas também. O “pedaço de mau caminho” proferido não surtiu o efeito esperado.
E assim era a rotina do sexagenário quando ia levar suas anotações ao periódico dito maior do sul destas bandas. O velhinho atirava para todos os lados. Diziam até que o desejo era tanto que vez ou outra tascava palavras em mulheres. Respirar já bastava para entrar na mira. E foi numa dessas que Daniel foi surpreendido.
Num dos estreitos corredores do veículo, enquanto rumava para o setor em que um dos colegas de trabalho teria mais informações de um caso em que foi testemunha, deparou-se com o vovô de porte de uma maleta 007 que deveria esconder muita sordidez. O velhinho o encurralou e o interpelou. “Ei, menino. Posso te mostrar uma coisa?”, questionou.
O rapaz fez de conta que era surdo de nascença, mas pouco adiantou. O idoso de gravata borboleta foi logo arrumando o corpo para revelar algo. “Agora não posso. Estou com muita pressa, senhor”, quis despistar. E o vovô ficou por ali, de calças arriadas e choroso com mais uma tentativa frustrada.
terça-feira, 16 de junho de 2009
O desejo reprimido da Tia Soraia
Bastava que os primeiros relatos dos tempos passados ganhassem a conversa para saber que tivera uma infância repleta de acontecimentos marcantes. Passado mais de meio século desde seu nascimento, Tia Soraia ostenta histórias e tanto dos tempos de menina, no interior do interior catarina. Hoje a tia vive em metrópole, em outro estado. Mas jamais se furta de contar aos familiares e chegados a infância modesta. Porém sadia e divertida.
Das mais velhas de uma verdadeira ninhada, teve que aprender desde cedo a se virar sozinha. Enquanto a maioria das meninas da mesma idade voltavam seus pensamentos para as matinês, aos rapazes e domingueiras na praça, a jovem Soraia estudava com afinco, costurava para fora e ainda reforçava o minguado caixa com aulas de bandolim, instrumento de sonoridade muito apreciado naqueles idos. Assim, ficara sem tempo para curtir a tenra idade.
Mais velha, deixara a região natal e fora para outro lugar. Não apenas para cursar o ensino superior. Queria ver coisas que antes seu mundinho a privara. Entre aulas e trabalhos acadêmicos, encontra Antognio. Conheceram-se, pegaram nas respectivas mãos e, quando a relação estava encaminhada, trouxera o carcamano para aprovação do genitor. Contra a vontade do pai, escolhera um descendente de italianos para se esposar. Como a moça já tinha praticamente a vida feita, fez pouco caso. Deu a benção e chispou os pombinhos.
Unidos, não demorou para que Tia Soraia embuchasse. Os rebentos vieram um após o outro. Ela, uma de uma ninhada, teve de passar a zelar pela própria. Os filhos cresceram, ganharam o mundo e, enfim, Soraia pode realizar suas vontades mais secretas. Umas tantas um pouco descabidas, por conta da idade. Mas dava de ombros e decidiu que não poderia mais esperar por experimentar o que a vida tinha, ou teve, a lhe oferecer. Foi numa viagem com um casal de amigos que provara a cigarrilha psicotrópica.
Estavam numa simpática pousada de uma praia paranaense. Após o churrasquinho, enquanto lavava a louça com a amiga, sentiu um cheiro que lhe remetia à juventude e suas privações. Averiguou e encontrou marido e o da outra num fumacê. Sem pedir permissão, arrancou o objeto cilíndrico da mão do cara, cheirou e experimentou, após mais de 50 anos de aguardo. Na roda, quando o sujeito ao lado estendia a mão para dar continuidade ao ritual, era advertido com um tapa e um “espera que ainda não deu nada”.
Desistiram de Soraia e foram apreciar outro longe de seus olhares. A tia dera fim no fumacento e ficara chateada com a experiência. Solitária, da sacada olhava para o céu desiludida. Pensava que veria coisas absurdas, como descreviam os amigos de colégio, décadas atrás. Imaginava que se sentiria diferente. Que de nada adiantara aquele desejo reprimido de tantos anos. Foi quando avistou algo entre as estrelas e chamou a atenção dos demais. “Antognio, vem ver. Venha logo”, brandiu.
Na acreditava que aquilo não tinha sido previsto pelas estações espaciais do mundo. Vinte anos depois, o cometa Halley dera novo ar da graça. E foi dormir menos decepcionada já que o “barato” não batera nela.
Das mais velhas de uma verdadeira ninhada, teve que aprender desde cedo a se virar sozinha. Enquanto a maioria das meninas da mesma idade voltavam seus pensamentos para as matinês, aos rapazes e domingueiras na praça, a jovem Soraia estudava com afinco, costurava para fora e ainda reforçava o minguado caixa com aulas de bandolim, instrumento de sonoridade muito apreciado naqueles idos. Assim, ficara sem tempo para curtir a tenra idade.
Mais velha, deixara a região natal e fora para outro lugar. Não apenas para cursar o ensino superior. Queria ver coisas que antes seu mundinho a privara. Entre aulas e trabalhos acadêmicos, encontra Antognio. Conheceram-se, pegaram nas respectivas mãos e, quando a relação estava encaminhada, trouxera o carcamano para aprovação do genitor. Contra a vontade do pai, escolhera um descendente de italianos para se esposar. Como a moça já tinha praticamente a vida feita, fez pouco caso. Deu a benção e chispou os pombinhos.
Unidos, não demorou para que Tia Soraia embuchasse. Os rebentos vieram um após o outro. Ela, uma de uma ninhada, teve de passar a zelar pela própria. Os filhos cresceram, ganharam o mundo e, enfim, Soraia pode realizar suas vontades mais secretas. Umas tantas um pouco descabidas, por conta da idade. Mas dava de ombros e decidiu que não poderia mais esperar por experimentar o que a vida tinha, ou teve, a lhe oferecer. Foi numa viagem com um casal de amigos que provara a cigarrilha psicotrópica.
Estavam numa simpática pousada de uma praia paranaense. Após o churrasquinho, enquanto lavava a louça com a amiga, sentiu um cheiro que lhe remetia à juventude e suas privações. Averiguou e encontrou marido e o da outra num fumacê. Sem pedir permissão, arrancou o objeto cilíndrico da mão do cara, cheirou e experimentou, após mais de 50 anos de aguardo. Na roda, quando o sujeito ao lado estendia a mão para dar continuidade ao ritual, era advertido com um tapa e um “espera que ainda não deu nada”.
Desistiram de Soraia e foram apreciar outro longe de seus olhares. A tia dera fim no fumacento e ficara chateada com a experiência. Solitária, da sacada olhava para o céu desiludida. Pensava que veria coisas absurdas, como descreviam os amigos de colégio, décadas atrás. Imaginava que se sentiria diferente. Que de nada adiantara aquele desejo reprimido de tantos anos. Foi quando avistou algo entre as estrelas e chamou a atenção dos demais. “Antognio, vem ver. Venha logo”, brandiu.
Na acreditava que aquilo não tinha sido previsto pelas estações espaciais do mundo. Vinte anos depois, o cometa Halley dera novo ar da graça. E foi dormir menos decepcionada já que o “barato” não batera nela.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Sexagenário faz sua segunda vítima
Essa cai bem para a época: amor em evidência, Dia dos Namorados.
Preocupado com que andava a escutar pelos corredores e ao redor da máquina de cafezinho da empresa, Lourival decidiu dar um basta na promíscua e furtiva relação (de troca) que mantinha com o galante sexagenário. Os presentes eram bons, é verdade. Mas sentia que sua honradez era dissipada dado os comentários que escutava aqui e ali. As declarações públicas estavam cada vez mais frequentes e incomodam o trabalhador de máquina fotográfica em punho.
Sem que os colegas percebessem, após uma das visitinhas do vovô taradão, deixou a sala e foi ao encontro do idoso. Em frente ao elevador, rapidamente, revelara o desconforto, agradecera os regalos e tocou o pé nas nádegas do festivo velhinho. Era aparente a tristeza do vôzinho nas semanas seguintes. Nas visitas ao periódico, falava ao telefone combinando festas e finais de semanas com quem costuma brindar com fotos estampadas. Falava em voz alta. Que era para o desgraçado ter a impressão de que o “não” nem o abalara.
Fiel seguidor das notícias que rondavam aquela relação um tanto bizarra, Anderson jamais imaginara um dia passar por situação semelhante. Não pense que foi ao acaso. Partiu dele o primeiro contato com o sexagenário. Estava de olho nos presentes que o idoso distribuía a quem “lhe fizesse bem”. Com orçamento curto e a temperatura a baixar, encarou a possibilidade de passar um inverno mais quente e confortável. Roupas novas.
Não demorou muito. Esses dias apareceu com uma bela jaqueta de couro. Feliz da vida. Se gosta dessa relação, não transparece. Mas é inegável que Anderson possui melhor habilidade de negociação que Lourival.
Preocupado com que andava a escutar pelos corredores e ao redor da máquina de cafezinho da empresa, Lourival decidiu dar um basta na promíscua e furtiva relação (de troca) que mantinha com o galante sexagenário. Os presentes eram bons, é verdade. Mas sentia que sua honradez era dissipada dado os comentários que escutava aqui e ali. As declarações públicas estavam cada vez mais frequentes e incomodam o trabalhador de máquina fotográfica em punho.
Sem que os colegas percebessem, após uma das visitinhas do vovô taradão, deixou a sala e foi ao encontro do idoso. Em frente ao elevador, rapidamente, revelara o desconforto, agradecera os regalos e tocou o pé nas nádegas do festivo velhinho. Era aparente a tristeza do vôzinho nas semanas seguintes. Nas visitas ao periódico, falava ao telefone combinando festas e finais de semanas com quem costuma brindar com fotos estampadas. Falava em voz alta. Que era para o desgraçado ter a impressão de que o “não” nem o abalara.
Fiel seguidor das notícias que rondavam aquela relação um tanto bizarra, Anderson jamais imaginara um dia passar por situação semelhante. Não pense que foi ao acaso. Partiu dele o primeiro contato com o sexagenário. Estava de olho nos presentes que o idoso distribuía a quem “lhe fizesse bem”. Com orçamento curto e a temperatura a baixar, encarou a possibilidade de passar um inverno mais quente e confortável. Roupas novas.
Não demorou muito. Esses dias apareceu com uma bela jaqueta de couro. Feliz da vida. Se gosta dessa relação, não transparece. Mas é inegável que Anderson possui melhor habilidade de negociação que Lourival.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
O galante sexagenário
Se parasse para imaginar como seria sua vida dali 10 anos jamais teria lhe ocorrido encontrar aquela figura, pitorescamente, estranha. A vida de Lourival pode ser comparada à jornada do garoto Buscapé, aquele do aclamado filme de Fernando Meirelles, Cidade de Deus. De infância humilde, filho de uma antiga cidade litorânea catarinense, adentrou ao jornalismo por baixo. “Bem por baixo”. Entregava jornais diariamente nas residências e estabelecimentos comerciais na cidade natal e arredores. Sua persistência em se tornar fotógrafo foi recompensada com a titularidade do posto em um aclamado periódico do sul do mundo.
E foi por detrás das mesas da redação que se deparou com o caricato senhor. Passado dos sessenta, vestes bem diferentes das quais costuma estampar em suas colunas sociais e piadinhas tão antigas quanto o que ainda considera “um luxo”. Era o novo colunista do veículo em que Lourival trabalhava. No primeiro contato, amor à primeira vista. Pelo menos por parte do velhinho metido, com pinta de preferências sexuais distintas das do rapaz da máquina fotográfica.
Ainda nos primeiros dias, o safadinho velhote começara suas investidas. “Que belos olhos você tem, rapaz”. Foi a primeira dos lábios murchos e de baba melada. Daí por então, foram várias estocadas. “Pareces um ator da Globo”, “rapaz, mas que porte você tem”, “você é casado? Sua esposa deve ser uma mulher muito feliz”, cortejava o senhor que gostava de estampar casais cinqüentenários, políticos regionais e “bon vivants” em seu espaço diário, além de um dos netos uma vez por semana.
As cantadas explícitas do sexagenário chegavam a causar embaraço nos colegas. Lourival fazia de conta que estava com problemas auditivos. Dizem que certa vez o festivo senhor deixara escapar em voz alta um “ô, lá em casa”, seguido de um suspiro. Ninguém confirma.
As carícias verbais do idoso eram cada vez mais frequentes e contundentes. O fotógrafo se esquivava do jeito que podia. Forjava uma longa conversa com o colega da mesa ao lado para tentar se proteger das, já, súplicas do vovô. Porém, por ossos do ofício, foi designado para realizar uma cobertura fotográfica de um evento promovido pelo faceiro velhinho. Durante a festa, ao pé do ouvido, fazia pedidos indecorosos. Eram respondidos com risadas pelo puro Lourival. Naquela noite voltara para casa com belo par de tênis Phuna, um dos mais cobiçados pelos rapazes da mesma jovem idade.
Por diante, era um rol de agrados. Certa vez chegou ao trabalho com iPod novíssimo. Semanas depois aparecera de camisa nova, aparentemente cara. Era um festival de regalos que deixava os amigos desconfiados da origem, já que somente com o salário do periódico não seria possível adquirir tais e tantos produtos. Numa partida futebolística da empresa, Gráfica x Redação, chegara atrasado, porém animado. Na véspera fora cobrir um outro evento promovido pelo vovô. O par de chuteiras novos, caneleiras, meiões e camisa afirmavam o que então eram desconfianças. Lourival cedera aos apelos do senhor e recebia presentes em troca de “favores”.
E foi por detrás das mesas da redação que se deparou com o caricato senhor. Passado dos sessenta, vestes bem diferentes das quais costuma estampar em suas colunas sociais e piadinhas tão antigas quanto o que ainda considera “um luxo”. Era o novo colunista do veículo em que Lourival trabalhava. No primeiro contato, amor à primeira vista. Pelo menos por parte do velhinho metido, com pinta de preferências sexuais distintas das do rapaz da máquina fotográfica.
Ainda nos primeiros dias, o safadinho velhote começara suas investidas. “Que belos olhos você tem, rapaz”. Foi a primeira dos lábios murchos e de baba melada. Daí por então, foram várias estocadas. “Pareces um ator da Globo”, “rapaz, mas que porte você tem”, “você é casado? Sua esposa deve ser uma mulher muito feliz”, cortejava o senhor que gostava de estampar casais cinqüentenários, políticos regionais e “bon vivants” em seu espaço diário, além de um dos netos uma vez por semana.
As cantadas explícitas do sexagenário chegavam a causar embaraço nos colegas. Lourival fazia de conta que estava com problemas auditivos. Dizem que certa vez o festivo senhor deixara escapar em voz alta um “ô, lá em casa”, seguido de um suspiro. Ninguém confirma.
As carícias verbais do idoso eram cada vez mais frequentes e contundentes. O fotógrafo se esquivava do jeito que podia. Forjava uma longa conversa com o colega da mesa ao lado para tentar se proteger das, já, súplicas do vovô. Porém, por ossos do ofício, foi designado para realizar uma cobertura fotográfica de um evento promovido pelo faceiro velhinho. Durante a festa, ao pé do ouvido, fazia pedidos indecorosos. Eram respondidos com risadas pelo puro Lourival. Naquela noite voltara para casa com belo par de tênis Phuna, um dos mais cobiçados pelos rapazes da mesma jovem idade.
Por diante, era um rol de agrados. Certa vez chegou ao trabalho com iPod novíssimo. Semanas depois aparecera de camisa nova, aparentemente cara. Era um festival de regalos que deixava os amigos desconfiados da origem, já que somente com o salário do periódico não seria possível adquirir tais e tantos produtos. Numa partida futebolística da empresa, Gráfica x Redação, chegara atrasado, porém animado. Na véspera fora cobrir um outro evento promovido pelo vovô. O par de chuteiras novos, caneleiras, meiões e camisa afirmavam o que então eram desconfianças. Lourival cedera aos apelos do senhor e recebia presentes em troca de “favores”.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Viagem no tempo
Moravam numa casa pequena, porém viviam rodeadas por um cenário que beirava o paradisíaco. Mas, Geralda e Marisa já estavam desgastadas pelo tempo. Pelas doenças também. Mãe e filha, viúva e solteirona, não arredavam pé dos limites domésticos. O convite a um passeio proporcionado por um belo dia de sol era menosprezado pela dupla. Geralda com 55 anos ficava deitada o dia inteiro. Mamãe Marisa, 77, atendia às manhas da filha e gostava de espiar a vizinhança pela janela.
Gerardinha, como se referiam jocosamente, era hipocondríaca. Algo ao extremo. De dar inveja e até causar espanto àqueles que tomam analgésico prevendo uma dor de cabeça nas próximas horas. Arrumava doenças inimagináveis. Dizem que uma vez Geralda alegou que era alvo de cupins que estariam roendo a mobília. A dedetização na casinha comprovara que os bichinhos jamais passaram por aquelas bandas. Crescia a suspeita de que as marcas no corpo eram fruto do enorme volume de remedinhos de ingeria.
“Gerarda” ficava na cama o dia inteiro. Levantava-se somente para ir ao banheiro. Isso quando nem se dava ao trabalho e fazia sobre o colchão. Não era das mais asseadas. Ao contrário da mãe. Dona Marisa, ainda que de forma estabanada, culpa da velhice que batera à porta e adentrara, à sua maneira dava conta dos serviços domésticos. Dava uma varridinha na casa, preparava as refeições e cuidava da filha. Só deixava o lar para ir ao supermercado ou à farmácia renovar o estoque da hipocondríaca e comprar as vitaminas que necessitava. Tomava cálcio para os ossos.
Ainda assim, mãe e filha viviam enclausuradas na casinha de 80 metros quadrados: sala/cozinha, banheiro e quarto. Não davam bola para a praia, a poucos metros, nos fundos da residência. Por conta disso, pareciam viver em um fuso horário diferente dos cidadãos comuns. Não era raro serem surpreendidas por visitas almoçando às dez da matina ou às cinco da tarde. O cotidiano irregular podia ser culpado pelas doenças de Geralda, que pareciam se agravar durante as madrugadas.
Dia desses, Dona Marisa passava o café durante um belo dia de verão. Intervalado por ais e uis, a filha repousava no quarto, com a janela fechada. Entre suspiros e aos gritos questionara a zelosa senhora: “Mamãe, que horas são?”. A velhinha direcionou o olhar ao relógio de ponteiros. O menor no oito, o maior próximo ao três. “São oito e quinze, minha filha”, respondeu. Segura que não estava suficientemente informada, Geralda deitada sobre a cama e aos berros, lança nova indagação para Marisa. “Da manhã ou da noite?”. A resposta demorou alguns instantes, mas saiu. “Pois eu não sei”, dando fim ao diálogo.
Gerardinha, como se referiam jocosamente, era hipocondríaca. Algo ao extremo. De dar inveja e até causar espanto àqueles que tomam analgésico prevendo uma dor de cabeça nas próximas horas. Arrumava doenças inimagináveis. Dizem que uma vez Geralda alegou que era alvo de cupins que estariam roendo a mobília. A dedetização na casinha comprovara que os bichinhos jamais passaram por aquelas bandas. Crescia a suspeita de que as marcas no corpo eram fruto do enorme volume de remedinhos de ingeria.
“Gerarda” ficava na cama o dia inteiro. Levantava-se somente para ir ao banheiro. Isso quando nem se dava ao trabalho e fazia sobre o colchão. Não era das mais asseadas. Ao contrário da mãe. Dona Marisa, ainda que de forma estabanada, culpa da velhice que batera à porta e adentrara, à sua maneira dava conta dos serviços domésticos. Dava uma varridinha na casa, preparava as refeições e cuidava da filha. Só deixava o lar para ir ao supermercado ou à farmácia renovar o estoque da hipocondríaca e comprar as vitaminas que necessitava. Tomava cálcio para os ossos.
Ainda assim, mãe e filha viviam enclausuradas na casinha de 80 metros quadrados: sala/cozinha, banheiro e quarto. Não davam bola para a praia, a poucos metros, nos fundos da residência. Por conta disso, pareciam viver em um fuso horário diferente dos cidadãos comuns. Não era raro serem surpreendidas por visitas almoçando às dez da matina ou às cinco da tarde. O cotidiano irregular podia ser culpado pelas doenças de Geralda, que pareciam se agravar durante as madrugadas.
Dia desses, Dona Marisa passava o café durante um belo dia de verão. Intervalado por ais e uis, a filha repousava no quarto, com a janela fechada. Entre suspiros e aos gritos questionara a zelosa senhora: “Mamãe, que horas são?”. A velhinha direcionou o olhar ao relógio de ponteiros. O menor no oito, o maior próximo ao três. “São oito e quinze, minha filha”, respondeu. Segura que não estava suficientemente informada, Geralda deitada sobre a cama e aos berros, lança nova indagação para Marisa. “Da manhã ou da noite?”. A resposta demorou alguns instantes, mas saiu. “Pois eu não sei”, dando fim ao diálogo.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Dez é demais
A casa ficava no interior de uma pequena cidade. O provento do lar vinha da lavoura e dos trabalhos esporádicos que o patriarca fazia. Muitas bocas a alimentar. Para piorar, o calendário era de algum ano da década 1970. Era este era o cenário da família Cirilo, descendência italiana, que vivia por este Sul do mundo. Vivam dignamente. De acordo com suas precárias possibilidade.
Por causa das finanças domésticas curtíssimas, nem rádio possuíam. Fator que explica a “ninhada” de dona Mariazinha: 10 rebentos. Bastava ela olhar para as vestes íntimas do marido penduradas no varal que a barriga começava a crescer. Os moradores daquele vilarejo, inclusive, contam que a partir do sétimo filho, Mariazinha nem se dava ao trabalho. Acocorava-se, paria, dava palmadas na criança e a colocava para conviver com as demais. Ainda meio suja da bolsa amniótica.
Na velha casa de madeira haviam cinco cômodos: sala, cozinha e três quartos. Dos três, um para o casal, outro para a filharada e o terceiro era o sagrado quarto de visitas. Naquele tempo, as dependências sanitárias eram construídas separadamente. A patente, como chamavam aquelas casinhas, ficava uns 50 metros da casa. Nos fundos do quintal. A ninhada dormia toda em um único aposento. Não podiam invadir o espaço destinado a acomodar os eventuais visitantes.
Sem conjunto de prato e talheres para todos, Mariazinha servia as refeições aos rebentos em grandes bacias. Também poupava água para lavar a louça. Cada qual com a sua colher ao redor da gamela. Vez ou outra os irmãos se estranhavam. Aquele que preferia “reservar” uma coxa de frango, por exemplo, num piscar de olhos, numa distração, corria o risco de ficar sem. Ao redirecionar a visão para a refeição e não encontrar o que guardara para comer no fim, lançava-se contra o alvo de suas suspeitas. Ao redor da bacia, guerra declarada.
Numa fria noite de inverno, Celsinho, uns oito anos, acordara apurado. Precisava fazer um número dois. Fax ainda era algo remoto. Como de hábito, o mais novo acordava um irmão mais velho que dormia ao lado para acompanhar até aquela casinha. Era preciso esperar que tudo deixasse de ser necessidade para, aí sim, voltar ao sono. Embalados, alguns não cediam às súplicas e voltavam a dormir. Sozinho, o pequeno Celso deixou o quarto e voltou minutos depois, sem fazer barulho ou alarde.
Naquele fim de semana os Cirilos receberam a visita dos tios Adamastor e Emengarda. Adamastor era irmão do patriarca Elviro. Iriam pernoitar naquela casa apertada. O quarto destinado aos visitantes ganharia utilidade. À noite, após o jantar, as lamparinas se apagaram. Todos para a cama. Na calada da noite, incomodado. Seu Elviro entrara no quarto e acordara o casal anfitrião e hospitaleiro. Não conseguia pegar no sono devido ao forte mau cheiro no recinto. Desconfiava de um animal morto e da higiene dos parentes.
O dono da casa garantiu que eram “limpinhos”, mas, ao entrar no quarto reconheceu que odor realmente incomodava. Que era de tirar o sono. Vasculharam o cômodo tentando encontrar o gerador do forte cheio. Sem sucesso, deram a própria cama ainda quente aos visitantes e ficaram com o quarto das visitas. Nas primeiras horas do dia, com o quarto iluminado, certamente encontrariam algo que justificasse aquela verdadeira catinga.
Não apenas descobriram o motivo do fedor no quarto ao lado, como acharam a causa do apuro de Celsinho, há poucos dias. Entre as tralhas debaixo da cama, um guarda-chuva, ao ser aberto revelava um montinho estranho. Para não ter de atravessar o quintal solitário, o menino defecou dentro do guarda-chuva, fechou e o colocou de baixo da cama do cômodo de visitantes.
Por causa das finanças domésticas curtíssimas, nem rádio possuíam. Fator que explica a “ninhada” de dona Mariazinha: 10 rebentos. Bastava ela olhar para as vestes íntimas do marido penduradas no varal que a barriga começava a crescer. Os moradores daquele vilarejo, inclusive, contam que a partir do sétimo filho, Mariazinha nem se dava ao trabalho. Acocorava-se, paria, dava palmadas na criança e a colocava para conviver com as demais. Ainda meio suja da bolsa amniótica.
Na velha casa de madeira haviam cinco cômodos: sala, cozinha e três quartos. Dos três, um para o casal, outro para a filharada e o terceiro era o sagrado quarto de visitas. Naquele tempo, as dependências sanitárias eram construídas separadamente. A patente, como chamavam aquelas casinhas, ficava uns 50 metros da casa. Nos fundos do quintal. A ninhada dormia toda em um único aposento. Não podiam invadir o espaço destinado a acomodar os eventuais visitantes.
Sem conjunto de prato e talheres para todos, Mariazinha servia as refeições aos rebentos em grandes bacias. Também poupava água para lavar a louça. Cada qual com a sua colher ao redor da gamela. Vez ou outra os irmãos se estranhavam. Aquele que preferia “reservar” uma coxa de frango, por exemplo, num piscar de olhos, numa distração, corria o risco de ficar sem. Ao redirecionar a visão para a refeição e não encontrar o que guardara para comer no fim, lançava-se contra o alvo de suas suspeitas. Ao redor da bacia, guerra declarada.
Numa fria noite de inverno, Celsinho, uns oito anos, acordara apurado. Precisava fazer um número dois. Fax ainda era algo remoto. Como de hábito, o mais novo acordava um irmão mais velho que dormia ao lado para acompanhar até aquela casinha. Era preciso esperar que tudo deixasse de ser necessidade para, aí sim, voltar ao sono. Embalados, alguns não cediam às súplicas e voltavam a dormir. Sozinho, o pequeno Celso deixou o quarto e voltou minutos depois, sem fazer barulho ou alarde.
Naquele fim de semana os Cirilos receberam a visita dos tios Adamastor e Emengarda. Adamastor era irmão do patriarca Elviro. Iriam pernoitar naquela casa apertada. O quarto destinado aos visitantes ganharia utilidade. À noite, após o jantar, as lamparinas se apagaram. Todos para a cama. Na calada da noite, incomodado. Seu Elviro entrara no quarto e acordara o casal anfitrião e hospitaleiro. Não conseguia pegar no sono devido ao forte mau cheiro no recinto. Desconfiava de um animal morto e da higiene dos parentes.
O dono da casa garantiu que eram “limpinhos”, mas, ao entrar no quarto reconheceu que odor realmente incomodava. Que era de tirar o sono. Vasculharam o cômodo tentando encontrar o gerador do forte cheio. Sem sucesso, deram a própria cama ainda quente aos visitantes e ficaram com o quarto das visitas. Nas primeiras horas do dia, com o quarto iluminado, certamente encontrariam algo que justificasse aquela verdadeira catinga.
Não apenas descobriram o motivo do fedor no quarto ao lado, como acharam a causa do apuro de Celsinho, há poucos dias. Entre as tralhas debaixo da cama, um guarda-chuva, ao ser aberto revelava um montinho estranho. Para não ter de atravessar o quintal solitário, o menino defecou dentro do guarda-chuva, fechou e o colocou de baixo da cama do cômodo de visitantes.
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