Por Samira Pereira
Sempre fui uma criança ativa e cheia de ideias mirabolantes. Aprontei muito – de forma saudável-, e não nego, sou responsável por grande parte dos fios de cabelos brancos que se encontram nas cabeças de meus pais. Posso citar intermináveis exemplos de minha peraltice, mas aqui enalteço uma, que por acaso era um dos meus maiores divertimentos. Costumava achar os pedaços de barro mais bonitos do barranco que fica próximo à minha casa. Depois deste árduo trabalho, dividia as partezinhas em bronze, prata e ouro, conforme sua beleza e cor. Por fim, após passar horas procurando e separando, comia todas elas. Isso mesmo. Pode parecer coisa de gente louca, mas eu considero algo típico de criança. É verdade que nunca vi nenhuma delas fazendo isto, mas não deixo de pensar que a brincadeira é própria da idade - cerca de cinco anos.
Quando fui descoberta por minha mãe, levei uma baita bronca. Ela alegava que eu ficaria doente, teria que levar várias injeções e ficar internada. Papo de mãe, não é mesmo? Discurso muito parecido ao de quando ela percebeu que eu comia todas as cabecinhas vermelhas dos palitos de fósforo. Afinal, fósforo é um elemento químico. E este tipo de substância faz bem ao corpo humano. Pelo menos era isso que eu imaginava. Pensava estar me fortalecendo provando aquelas deliciosas pontinhas cor da paixão que estalavam na boca. Elas eram azedinhas, como eu gostava. Depois de destruir várias caixas dos palitos, fui obrigada e deixá-los de lado. O medo de ir ao hospital era maior do que a vontade de comer.
E assim, deixando-me levar pelo pecado da gula, tomei chá de formiga, já que diziam ser bom para dor de barriga e comi capim, que era um vegetal (sempre soube que as folhas faziam bem ao organismo) que as vacas saboreavam com tanto gosto. Hoje, olho para trás e percebo o quão inocente e sapeca fui durante a minha infância. A curiosidade era maior que a razão. Sempre foi, e por vezes continua sendo. Não como mais o barro nem a cabeça do fósforo porque sei que existem alimentos um pouco mais saudáveis e apetitosos que eu possa saborear. Também não provo mais folhinhas de capim, deixo para as vacas, elas parecem mais felizes com a comida. E o chá de formigas? Prefiro deixar os bichinhos viverem em paz.
São pedacinhos de uma infância repleta de lembranças, e boas lembranças. Quando tiver um filho, alertarei que a porta do hospital é a serventia da casa... Se ele vier a comer algo incomum ao meu atual paladar, a injeção é certa. Assim como a palmada se cortar em retalhos o jogo de lençol novo. Mas deixa pra lá, esta já é outra história!
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
O segredo dele
Ele via a faixa dos 50 à sua frente, pertinho. Ela recém cruzara as dos 40, pouco tempo depois. Se tivessem se conhecido anos antes, jamais imaginariam que um dia haveria “ois” e “boa tarde” entre os dois. A sugestão foi de uma amiga em comum, irmã dela, casada com o amigo do quase cinquentão. No bom sentido, a moça introduziu um ao outro. Ela recatada, ele mais rodado que o estepe do motorhome do Tio Sebastião.
A introdutora alertara: “É um caco. Mas, é um caco bom, sabe?”, resumindo para a irmã mais velha. Conheceram-se, trocaram telefones. Também carícias, telefonemas depois. Ele estava sozinho há alguns meses. Ela há alguns verões. “Por que não?”, pensavam em uníssono, cada um de sua janela. Engataram. E assim ficaram durante o período permitido.
Empresário com negócios no exterior, passara o período de férias em terreno brazuca. Ele precisava retomar o ganha-pão além mar deixado para trás, meses antes. Apaixonada, ela não conseguia entender como o forte candidato a impor a coroa de príncipe encantado a deixaria ali. Depois de anos de ventania, enfim conseguira catar um pedaço de papel.
Ele foi. Ela não. O primeiro manteve sua rotina de trabalhos quase forçados em terras inóspitas. A cidadã teve de encarar novamente o vento forte à cara. Com ele por lá e com a ferida da partida ainda aberta, ela voltou à realidade e encontrou um novo candidato à tampa da sua panela. Envolveu-se com o “tampa” e apresentou-o aos pais. Estava certa que finalmente encontrara a sandália para seus pés tão cansados.
Ele voltou para o período de férias em terras canárias. Ela estava com o “tampa”, ainda que as coisas não andassem em ebulição, como presumia como seria o amor de sua vida. Ele voltou à labuta, novamente, de olho num cargo diplomático na terra-natal. Ela manteve o “tampa”, até que a fervura do caldo levantou e tornou a situação insustentável. Após a decepção, decidira que tão cedo não iria se envolver com alguém e apresentá-lo aos fadigados pais e mães.
Ele voltou, como de hábito, absoluto que adquiriria o cargo cobiçado, e depois, conquistado. Ela pensava em dar um tempo nesta história de tampas e sandálias. Prometera às suas primogênitas que ficaria longe de par de calças que aparecessem em meio aos fortes ventos. Porém, ao saber da condição dela, ele encheu-se de esperança. Ainda que contida, ela nutria algumas esperanças.
Ocasionalmente, ele a procurara em meio ao tumulto de um baile badalado na cidadezinha querida. Ela confessou o que ocorrera até ali e a condição de panela destampada em que se encontrava. Porém, alertou que a pressão familiar era das grandes. Que tão cedo não deveria haver envolvimento, com medo das reprimendas do paterno. Tornaram-se segredo. Diante da platéia.
Encontravam-se furtivamente, mantendo a chama de anos atrás viva. Tudo era levado em absoluto sigilo. Ela dizia que iria à até esquina comprar cigarros – mesmo sendo não adepta ao tabagismo. Já que morava sozinho, ele não dava muitas explicações. Passara a chamá-la de “meu segredo”. Fins de semana e durante os dias de labuta, os dois encontravam-se vez ou outra. Passavam a limpo os dias desde a última vez que se encontraram e davam continuidade aquele pacto. Carinhosamente, ele a chamava de “meu segredo”. Ela adorava aquilo, como doce palavras fossem.
Porém, a cada dia, o segredo parecia com tudo menos um segredo. Saiam separados, mas compartilhavam a mesma mesa no bar. Em seguida, saiam juntos e compartilhavam a mesma mesa do barzinho. Na cara dura, ainda que “meu segredo”. Ela contara às filhas, que reagiram com receio. Ele, aos seus garotos, que manifestaram esperança de o papai já cinquentinha, como preferia, sossegasse seu facho.
Numa destas saídas do quase decifrável segredo, ele não se conteve. Puxou a senhorinha para dançar no embalo da banda do barzinho _ com um pianista afinadíssimo. A turma de cidade pequena, boquiaberta desviara a atenção para a cena. Ao soar a última nota, embriagado pela situação, ele tascara aquele beijo na boca. Uns afirmar categóricos terem visto uma língua entre os lábios. Revelara aos munícipes o que antes reprimia diante de toda a sociedade.
Segredo revelado, pediu a ela uma desculpa solene. Teria passado dos limites naquele momento. Ainda, que não gostaria de alimentar falsas esperanças nela. Desfariam o re-relacionamento. Desmancharam os laços. Ele alegava para si e aos mais próximos: “Bom mesmo era o segredo”, justificou.
A introdutora alertara: “É um caco. Mas, é um caco bom, sabe?”, resumindo para a irmã mais velha. Conheceram-se, trocaram telefones. Também carícias, telefonemas depois. Ele estava sozinho há alguns meses. Ela há alguns verões. “Por que não?”, pensavam em uníssono, cada um de sua janela. Engataram. E assim ficaram durante o período permitido.
Empresário com negócios no exterior, passara o período de férias em terreno brazuca. Ele precisava retomar o ganha-pão além mar deixado para trás, meses antes. Apaixonada, ela não conseguia entender como o forte candidato a impor a coroa de príncipe encantado a deixaria ali. Depois de anos de ventania, enfim conseguira catar um pedaço de papel.
Ele foi. Ela não. O primeiro manteve sua rotina de trabalhos quase forçados em terras inóspitas. A cidadã teve de encarar novamente o vento forte à cara. Com ele por lá e com a ferida da partida ainda aberta, ela voltou à realidade e encontrou um novo candidato à tampa da sua panela. Envolveu-se com o “tampa” e apresentou-o aos pais. Estava certa que finalmente encontrara a sandália para seus pés tão cansados.
Ele voltou para o período de férias em terras canárias. Ela estava com o “tampa”, ainda que as coisas não andassem em ebulição, como presumia como seria o amor de sua vida. Ele voltou à labuta, novamente, de olho num cargo diplomático na terra-natal. Ela manteve o “tampa”, até que a fervura do caldo levantou e tornou a situação insustentável. Após a decepção, decidira que tão cedo não iria se envolver com alguém e apresentá-lo aos fadigados pais e mães.
Ele voltou, como de hábito, absoluto que adquiriria o cargo cobiçado, e depois, conquistado. Ela pensava em dar um tempo nesta história de tampas e sandálias. Prometera às suas primogênitas que ficaria longe de par de calças que aparecessem em meio aos fortes ventos. Porém, ao saber da condição dela, ele encheu-se de esperança. Ainda que contida, ela nutria algumas esperanças.
Ocasionalmente, ele a procurara em meio ao tumulto de um baile badalado na cidadezinha querida. Ela confessou o que ocorrera até ali e a condição de panela destampada em que se encontrava. Porém, alertou que a pressão familiar era das grandes. Que tão cedo não deveria haver envolvimento, com medo das reprimendas do paterno. Tornaram-se segredo. Diante da platéia.
Encontravam-se furtivamente, mantendo a chama de anos atrás viva. Tudo era levado em absoluto sigilo. Ela dizia que iria à até esquina comprar cigarros – mesmo sendo não adepta ao tabagismo. Já que morava sozinho, ele não dava muitas explicações. Passara a chamá-la de “meu segredo”. Fins de semana e durante os dias de labuta, os dois encontravam-se vez ou outra. Passavam a limpo os dias desde a última vez que se encontraram e davam continuidade aquele pacto. Carinhosamente, ele a chamava de “meu segredo”. Ela adorava aquilo, como doce palavras fossem.
Porém, a cada dia, o segredo parecia com tudo menos um segredo. Saiam separados, mas compartilhavam a mesma mesa no bar. Em seguida, saiam juntos e compartilhavam a mesma mesa do barzinho. Na cara dura, ainda que “meu segredo”. Ela contara às filhas, que reagiram com receio. Ele, aos seus garotos, que manifestaram esperança de o papai já cinquentinha, como preferia, sossegasse seu facho.
Numa destas saídas do quase decifrável segredo, ele não se conteve. Puxou a senhorinha para dançar no embalo da banda do barzinho _ com um pianista afinadíssimo. A turma de cidade pequena, boquiaberta desviara a atenção para a cena. Ao soar a última nota, embriagado pela situação, ele tascara aquele beijo na boca. Uns afirmar categóricos terem visto uma língua entre os lábios. Revelara aos munícipes o que antes reprimia diante de toda a sociedade.
Segredo revelado, pediu a ela uma desculpa solene. Teria passado dos limites naquele momento. Ainda, que não gostaria de alimentar falsas esperanças nela. Desfariam o re-relacionamento. Desmancharam os laços. Ele alegava para si e aos mais próximos: “Bom mesmo era o segredo”, justificou.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Em 30 minutos, talvez 40
Iniciar, Programas, Microsoft Office, Word. Fica a pergunta: por que “palavra” se todos usam para escrever mais de uma? Vai saber. A tela predominante branca, representando uma folha, é um convite ou um desafio? Mais uma pergunta que fica sem resposta. Pelo menos a primeira palavra está definida. Coloco o nome da cidade, espaço, um traçinho e outro espaço. Uma das obrigações do texto do diário em que a história deverá ser publicada.
Feito isso em um segundo, quem sabe um pouco mais, a barrinha vertical cisma em ficar piscando. Clamando por mais palavras, por mais trabalho. Com a mão direita espalmada, coço o queixo, às vezes habitado pela barba rala meio alourada. As costas pressionam o encosto e cadeira vai para trás. As rodinhas me afastam das letrinhas estampadas do teclado. Olho para o teto. Continua da mesma cor da semana passada. Coloco algumas palavras. Não me agrada. Apago selecionando tudo e pressiono o delete. Fica só o nome da cidade na frente mesmo. Displicente, digito despretensiosamente “siodjsaidjiasdja”. Repito a operação anterior.
Uma nova idéia, novas palavras começam a formar o que horas depois será lido por uma grande porção de pessoas ou meia dúzia. Sai a primeira fase, começa a segunda. Jogo tudo isso numa outra linha e começo novamente. Agora vai. Foi. O que sobrou foi apagado. Um parágrafo, com umas cinco ou seis linhas. Algumas vezes tem sete ou até oito. Penso que as seguintes deverão ter o mesmo tamanho. Sempre me lembro de um livro do jornalista Ricardo Noblat quando escrevo o primeiro parágrafo. O cara tem mania de escrever todos os parágrafos do mesmo tamanho.
Tento, mas sempre há os que ficam maiores, outros menores. Não dou bola. Coloco mais algumas palavras e recorro às anotações. “Cadê aquele parte em que o cara falava sobre a estimativa para o próximo mês?”, converso mentalmente. Achei. De primeira não entendo aqueles rabiscos e garranchos. Observo novamente, abro aspas e toco o que o cara falou. Fecho e coloco o nome do carinha e sua profissão depois da vírgula.
Procuro na internet algo relacionado. Às vezes serve. Opa, já estou pra começar o quarto parágrafo. Olhos os três anteriores e me dou conta que não estão do mesmo tamanho. Deixo a mesa para saber qual o espaço, em que página será acomodado aquilo tudo. Aproveito e deixo a sala. Tomo um copo d’água, pego um cafezinho. Comento algo com alguém e volto a me sentar. Reviso o que foi escrito até ali. Conferir se não passou uma bobagem e para poder retomar o assunto.
Escrevo mais um ou dois parágrafos. Será que está pronto? No texto sobram afirmações, nos meus pensamentos as interrogações. Para tentar me convencer, nova revisão. Desta vez mais criteriosa, de olho em possíveis erros – digitação, palavras repetidas e até o estilo. Recordo de uma informação bacana que cairia bem depois da primeira fase do parágrafo três. Escrevo e gosto. Fica ali. Volto umas três sentenças antes para continuar a correção. Acredito que está bom. Não! “Ufa”, suspiro. Ponto final.
Feito isso em um segundo, quem sabe um pouco mais, a barrinha vertical cisma em ficar piscando. Clamando por mais palavras, por mais trabalho. Com a mão direita espalmada, coço o queixo, às vezes habitado pela barba rala meio alourada. As costas pressionam o encosto e cadeira vai para trás. As rodinhas me afastam das letrinhas estampadas do teclado. Olho para o teto. Continua da mesma cor da semana passada. Coloco algumas palavras. Não me agrada. Apago selecionando tudo e pressiono o delete. Fica só o nome da cidade na frente mesmo. Displicente, digito despretensiosamente “siodjsaidjiasdja”. Repito a operação anterior.
Uma nova idéia, novas palavras começam a formar o que horas depois será lido por uma grande porção de pessoas ou meia dúzia. Sai a primeira fase, começa a segunda. Jogo tudo isso numa outra linha e começo novamente. Agora vai. Foi. O que sobrou foi apagado. Um parágrafo, com umas cinco ou seis linhas. Algumas vezes tem sete ou até oito. Penso que as seguintes deverão ter o mesmo tamanho. Sempre me lembro de um livro do jornalista Ricardo Noblat quando escrevo o primeiro parágrafo. O cara tem mania de escrever todos os parágrafos do mesmo tamanho.
Tento, mas sempre há os que ficam maiores, outros menores. Não dou bola. Coloco mais algumas palavras e recorro às anotações. “Cadê aquele parte em que o cara falava sobre a estimativa para o próximo mês?”, converso mentalmente. Achei. De primeira não entendo aqueles rabiscos e garranchos. Observo novamente, abro aspas e toco o que o cara falou. Fecho e coloco o nome do carinha e sua profissão depois da vírgula.
Procuro na internet algo relacionado. Às vezes serve. Opa, já estou pra começar o quarto parágrafo. Olhos os três anteriores e me dou conta que não estão do mesmo tamanho. Deixo a mesa para saber qual o espaço, em que página será acomodado aquilo tudo. Aproveito e deixo a sala. Tomo um copo d’água, pego um cafezinho. Comento algo com alguém e volto a me sentar. Reviso o que foi escrito até ali. Conferir se não passou uma bobagem e para poder retomar o assunto.
Escrevo mais um ou dois parágrafos. Será que está pronto? No texto sobram afirmações, nos meus pensamentos as interrogações. Para tentar me convencer, nova revisão. Desta vez mais criteriosa, de olho em possíveis erros – digitação, palavras repetidas e até o estilo. Recordo de uma informação bacana que cairia bem depois da primeira fase do parágrafo três. Escrevo e gosto. Fica ali. Volto umas três sentenças antes para continuar a correção. Acredito que está bom. Não! “Ufa”, suspiro. Ponto final.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Casal Jota
Em comum tinham apenas o “jota” grafado no início dos nomes. Assim era uns dez anos antes, quando tiveram o primeiro contato. Na época o rapaz nem sabia o que queria ser quando crescer. A moça ensaiava os primeiros passos na profissão. Porém, não trocavam muitas palavras. Nada além de “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. E assim foi por volta de três pares de anos.
Passado o período tornaram-se colegas de profissão. Cada qual no seu emprego. Tinham a mesma formação. Trabalhavam em setores diferentes, ainda que correlacionados. A menina abastecia com informações empresas do gênero em que ele labutava. Ainda assim, os contatos ficavam no “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. Acrescidos de “alguma novidade por ai?”, de ambos os lados, praticamente. Por motivos meramente profissionais, os dois começaram se aproximar. Coisas de trabalho.
Deve ter sido motivado por algum grande acontecimento na empresa em que a moça dava o sangue. Ele cumpria com suas obrigações no local de trabalho. Por força da labuta, passaram a se falar com mais freqüência: “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. “Acha que dá para mandar aquele material até terça? Conseguiu marcar com aquele professor de química?”.
Em meio aos assuntos, descobriam um pouco mais sobre um e outro. Assim, guardavam para si “Ele é bacana, inteligente”, pensava a mocinha. “Ô lá em casa”, suspirava o guri. Porém, quando se encontravam em ocasiões de trabalho permanecia o rito “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. Foi durante uma conversa com um amigo em comum que os pensamentos contidos foram externados. O coleguinha tratou logo de fazer às vezes de cupido. Ou pombo correio. Vai saber.
Numa determinada festa, encontraram-se. “Oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. E ficaram um a cercar o outro. Ambos aguardavam um ato, uma palavra que confirmasse o que o bocudo dissera. Passada a tensão e, lá pelas tantas, tiraram aquela história toda a limpo. Beijaram-se, trocaram confidências, números de telefones particulares e promessas de “me liga”, “vamos combinar alguma coisa”.
Passado um semestre, conversam menos durante o trabalho e mais em seus momentos de vida privada. Os papos são alongados, ainda que mantenham as saudações de uma década, acrescido de um vocábulo: “Oi, amor”, “oi”, “tudo bem, amor?”, “tuuudo, môr”.
Passado o período tornaram-se colegas de profissão. Cada qual no seu emprego. Tinham a mesma formação. Trabalhavam em setores diferentes, ainda que correlacionados. A menina abastecia com informações empresas do gênero em que ele labutava. Ainda assim, os contatos ficavam no “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. Acrescidos de “alguma novidade por ai?”, de ambos os lados, praticamente. Por motivos meramente profissionais, os dois começaram se aproximar. Coisas de trabalho.
Deve ter sido motivado por algum grande acontecimento na empresa em que a moça dava o sangue. Ele cumpria com suas obrigações no local de trabalho. Por força da labuta, passaram a se falar com mais freqüência: “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. “Acha que dá para mandar aquele material até terça? Conseguiu marcar com aquele professor de química?”.
Em meio aos assuntos, descobriam um pouco mais sobre um e outro. Assim, guardavam para si “Ele é bacana, inteligente”, pensava a mocinha. “Ô lá em casa”, suspirava o guri. Porém, quando se encontravam em ocasiões de trabalho permanecia o rito “oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. Foi durante uma conversa com um amigo em comum que os pensamentos contidos foram externados. O coleguinha tratou logo de fazer às vezes de cupido. Ou pombo correio. Vai saber.
Numa determinada festa, encontraram-se. “Oi”, “oi”, “tudo bem?”, “tuuudo”. E ficaram um a cercar o outro. Ambos aguardavam um ato, uma palavra que confirmasse o que o bocudo dissera. Passada a tensão e, lá pelas tantas, tiraram aquela história toda a limpo. Beijaram-se, trocaram confidências, números de telefones particulares e promessas de “me liga”, “vamos combinar alguma coisa”.
Passado um semestre, conversam menos durante o trabalho e mais em seus momentos de vida privada. Os papos são alongados, ainda que mantenham as saudações de uma década, acrescido de um vocábulo: “Oi, amor”, “oi”, “tudo bem, amor?”, “tuuudo, môr”.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Pompeu, a lenda
Talvez pela proximidade entre as duas palavras, boa parte acredita que legendário tem a ver com legenda. Nada disso. Legendário é uma capacidade, uma aptidão, para poucos. Antes do sujeito vir ao mundo dos vivos brilhar e causar, papai do céu tasca o carimbinho. Legendário é a potenciabilidade do cidadão em se tornar uma lenda. Pois esta é uma história sobre uma delas. Hoje, dado o remoto tempo, uma lenda urbana mantida viva pela lembrança de uma meia dúzia.
Desde seus primeiros aniversários, Pompeu parecia um rapaz como todos os outros. Quando garoto queria ser ponta esquerda de um famoso clube do futebol, na época em ascensão. Admirado em sua terra natal, conquistaria o mundo e seus dólares. Vestiria a amarelinha. Fariam carreatas na cidade em que cresceu quando viesse passar suas férias. Porém, como todo sonho de menino, perdera o interesse. Destinava seus esforços em adquirir conhecimento e ser um cidadão direito.
E assim fora por um longo período. Até, certo dia, cansado da monotonia à espreita, decidiu que faria as coisas diferentes. Queria o inusitado. Causar mesmo. Sem fazer muito esforço, apenas dando vazão aos devaneios, cativava colegas. Juntava amigos. Era o cara da turma. Nas festinhas, enchia a própria latinha sem medo. Mamava como um cordeiro desgarrado. Assim, colocava em prática o que lhe ocorria. Passou a ser atração e sinônimo de diversão garantida ao subir nos palcos espalhados pela geografia do entorno.
Nas formaturas universitárias, só esperava a chamada para congratulação de ex-acadêmicos em cima do “stage” ao som de “Amigos para Siempre”. Estava ele, ditando o ritmo da banda. Puxando as coreografias inusitadas. Levando ao delírio a ror. Não tinha erro. No show do grupo local ou de uma bandinha dos arredores, lá estava ele. Animado, coreografado e mamado. Assim era Pompeu.
O assédio era intenso. Os seguranças já o conheciam. Dizem que umas duas empresas distribuíam fotografias do rapaz entre seus profissionais para coibir sua ação. Era tido como “O Impostor”, do Pânico na TV, daquele tempo. Burlava sistemas e tava lá no alto. Causando. Foi quando tentou o seu golpe mais agudo. No show de um cantor popularesco em uma cidade vizinha. O interprete, na época, andava em alta. Sua música era a mais tocada nas rádios com programação dedicada as domésticas, vigias e porteiros.
Na determinada hora e local, lá estava ele. As primeiras dancinhas rolavam e ele alongava. Na hora do bis era certo que soaria a canção contagiava corações, matinês e preferências. Soaram os primeiros acordes e foi na turma do gargarejo. Na hora do refrão, no vacilo da linha defensiva, lá estava ele. Ensinando o ídolo de muitos que aquela dança era para poucos. Foi ovacionado e tirado de sobre o palco.
Parcos registros fotográficos mantém a prova cabal. O assunto tomou conta da região sul de todo o globo terrestre. Editores estampavam manchetes e reclamavam da falta de imagens de Pompeu. Os chegados prepararam uma homenagem. Destituída quando saiu um decreto municipal, publicado em forma de edital. O prefeito em pessoa entregaria a chave da cidade ao autor da façanha. Quem sabe até ofertaria uma cadeira numa repartição. Mas desde então, resolveu deixar as estripulias de lado. No dia do retorno, desviou a atenção dos batedores da Polícia Militar. Entrou pelos fundos. Deixou o circo armado a esperar até que cansassem e desistissem daquela homenagem.
E até hoje, numa formatura universitária, num show de um artista apreciado, uns se relembram com lágrimas nos olhos. Ainda que o sorriso esteja no rosto. Outros ao ouvir a canção “Festa no apê”, levantam-se, colocam os braços para trás, com uma mão segurando a outra, sobre a lomba das nádegas, e aguardam até o fim da melodia em respeito à lenda que ficou para trás sem deixar o legado ou herdeiros.
Desde seus primeiros aniversários, Pompeu parecia um rapaz como todos os outros. Quando garoto queria ser ponta esquerda de um famoso clube do futebol, na época em ascensão. Admirado em sua terra natal, conquistaria o mundo e seus dólares. Vestiria a amarelinha. Fariam carreatas na cidade em que cresceu quando viesse passar suas férias. Porém, como todo sonho de menino, perdera o interesse. Destinava seus esforços em adquirir conhecimento e ser um cidadão direito.
E assim fora por um longo período. Até, certo dia, cansado da monotonia à espreita, decidiu que faria as coisas diferentes. Queria o inusitado. Causar mesmo. Sem fazer muito esforço, apenas dando vazão aos devaneios, cativava colegas. Juntava amigos. Era o cara da turma. Nas festinhas, enchia a própria latinha sem medo. Mamava como um cordeiro desgarrado. Assim, colocava em prática o que lhe ocorria. Passou a ser atração e sinônimo de diversão garantida ao subir nos palcos espalhados pela geografia do entorno.
Nas formaturas universitárias, só esperava a chamada para congratulação de ex-acadêmicos em cima do “stage” ao som de “Amigos para Siempre”. Estava ele, ditando o ritmo da banda. Puxando as coreografias inusitadas. Levando ao delírio a ror. Não tinha erro. No show do grupo local ou de uma bandinha dos arredores, lá estava ele. Animado, coreografado e mamado. Assim era Pompeu.
O assédio era intenso. Os seguranças já o conheciam. Dizem que umas duas empresas distribuíam fotografias do rapaz entre seus profissionais para coibir sua ação. Era tido como “O Impostor”, do Pânico na TV, daquele tempo. Burlava sistemas e tava lá no alto. Causando. Foi quando tentou o seu golpe mais agudo. No show de um cantor popularesco em uma cidade vizinha. O interprete, na época, andava em alta. Sua música era a mais tocada nas rádios com programação dedicada as domésticas, vigias e porteiros.
Na determinada hora e local, lá estava ele. As primeiras dancinhas rolavam e ele alongava. Na hora do bis era certo que soaria a canção contagiava corações, matinês e preferências. Soaram os primeiros acordes e foi na turma do gargarejo. Na hora do refrão, no vacilo da linha defensiva, lá estava ele. Ensinando o ídolo de muitos que aquela dança era para poucos. Foi ovacionado e tirado de sobre o palco.
Parcos registros fotográficos mantém a prova cabal. O assunto tomou conta da região sul de todo o globo terrestre. Editores estampavam manchetes e reclamavam da falta de imagens de Pompeu. Os chegados prepararam uma homenagem. Destituída quando saiu um decreto municipal, publicado em forma de edital. O prefeito em pessoa entregaria a chave da cidade ao autor da façanha. Quem sabe até ofertaria uma cadeira numa repartição. Mas desde então, resolveu deixar as estripulias de lado. No dia do retorno, desviou a atenção dos batedores da Polícia Militar. Entrou pelos fundos. Deixou o circo armado a esperar até que cansassem e desistissem daquela homenagem.
E até hoje, numa formatura universitária, num show de um artista apreciado, uns se relembram com lágrimas nos olhos. Ainda que o sorriso esteja no rosto. Outros ao ouvir a canção “Festa no apê”, levantam-se, colocam os braços para trás, com uma mão segurando a outra, sobre a lomba das nádegas, e aguardam até o fim da melodia em respeito à lenda que ficou para trás sem deixar o legado ou herdeiros.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Esculachos de família
Já com a idade avançada, a senhora dava sinais que não tinha mais a audição tão apurada como outrora. Estava ficando meio surda. Além disso, com certa periodicidade entrava em conflito com a filha mais velha, que morava na casa ao lado. Para poder cuidar, ainda que distante, de dona Vilma. Tarefa difícil para a filha, que em alguns momentos lhe faltava paciência por causa das manias da mãe. Acabava-se em discussões em tom alto com a velhinha.
Briga familiar para uns, motivos de gargalhadas dos moradores das casas vizinhas. Muitas vezes, o bate-boca ocorria com cada uma de seu lado do muro. Volume no 10. Com respostas agressivas e outras tantas descabidas. Aos primeiros insultos, os vizinhos iam para janela. Faziam de conta que estavam a verificar se viria chuva, se iria esfriar.
Certo dia, cada uma das mulheres estavam em suas respectivas casas. Dedicavam as horas em tarefas domésticas. E, mentalmente, a planejar os próximos xingamentos para fazer bonito para quando o tempo fechasse. A filha estava por iniciar a lavagem das roupas que enchiam os cestos. A velhinha a lavar a louça do cafezinho com as fagueiras amigas minutos antes.
Do outro lado do muro, a filha de dona Vilma catava cuecas e bermudas do filho e do marido, espalhadas pela casa. Ainda, era necessário pegar as roupas de cama e ela pede ajuda à neta de Vilma, do outro lado da residência, trancada no seu quarto decorado com motivos adolescentes. “Minha filha, vem aqui. Preciso da sua ajuda!”, gritou para que a mocinha escutasse. Do outro lado, com as orelhas cansadas pelo tempo, dona Vilma saiu batendo as tamancas no chão. Furiosa, partiu em direção ao muro. “Sou linguaruda mesmo”, dando início a mais um colossal barraco.
Briga familiar para uns, motivos de gargalhadas dos moradores das casas vizinhas. Muitas vezes, o bate-boca ocorria com cada uma de seu lado do muro. Volume no 10. Com respostas agressivas e outras tantas descabidas. Aos primeiros insultos, os vizinhos iam para janela. Faziam de conta que estavam a verificar se viria chuva, se iria esfriar.
Certo dia, cada uma das mulheres estavam em suas respectivas casas. Dedicavam as horas em tarefas domésticas. E, mentalmente, a planejar os próximos xingamentos para fazer bonito para quando o tempo fechasse. A filha estava por iniciar a lavagem das roupas que enchiam os cestos. A velhinha a lavar a louça do cafezinho com as fagueiras amigas minutos antes.
Do outro lado do muro, a filha de dona Vilma catava cuecas e bermudas do filho e do marido, espalhadas pela casa. Ainda, era necessário pegar as roupas de cama e ela pede ajuda à neta de Vilma, do outro lado da residência, trancada no seu quarto decorado com motivos adolescentes. “Minha filha, vem aqui. Preciso da sua ajuda!”, gritou para que a mocinha escutasse. Do outro lado, com as orelhas cansadas pelo tempo, dona Vilma saiu batendo as tamancas no chão. Furiosa, partiu em direção ao muro. “Sou linguaruda mesmo”, dando início a mais um colossal barraco.
sábado, 25 de julho de 2009
Uva, o fruto proibido
Adão e Eva foram expulsos do paraíso. A historia bíblica todo mundo já ouviu falar. O que pouca gente sabe é que na década de 1950 era a uva o fruto proibido. Obviamente, não tinha as mesmas restrições do que o alimento que dava no pé em que morava uma serpente. Em uma específica época do ano, naqueles tempos, o consumo era considerado pecado. Fruto que rendia oras de penitência após a confissão ao pároco.
Em seus tenros 10 anos, Joaquim não tinha conhecimento do fato. Na década, anos 50, a semana santa já tinha início no final da tarde de terça-feira. Adultos e idosos jejuavam de verdade. Apenas uma refeição por dia em que se consumia o mínimo. Em algumas casas, como a de Quinzinho, as obrigações eram exigidas dos mais jovens. As ruas ficavam vazias. As crianças não podiam brincar. Tédio geral entre a molecada. Ainda, a comunicação entre as pessoas era mínima. Leves e lentos acenos com as mãos e cabeça. Olhares limitados. As conversas tinham um tom quase inaudível e de parcas palavras.
Já na quinta-feira, faminto e entediado, Quim acordara com um desejo incontrolável de comer uvas. De família muito simples e jovial para o trabalho, não tinha um níquel sequer nos bolsos das calças curtas ou guardado em uma caixinha de papelão. Passará a manhã toda sonhando com cachos bem fornidos e repletos de bolinhas adocicadas. Resolvera então tomar uma cédula de uma bolsa desavisada ao alcance de seus olhinhos curiosos e mãos com dedos pequeninos.
Em vistoria pelo recinto, mirara a bolsa da Tia Zezé, que dera o ar da graça há poucos minutos. Foi aumentar o silencioso coro de orações. Sem nenhuma noção do valor de dinheiro, furtivamente abriu o objeto e puxara a primeira cédula à vista. Era uma nota de 20 cruzeiros. Que nos dias de hoje equivaleria algo superior a 100 reais. Partiu para um armazém nas cercanias que se gabava das melhores e mais doces frutas do vilarejo.
Na ponta dos pés e escorado no balcão, mostrou a nota e apontou para as frutas pequenas e rotundas. “Tudo de uvas, senhora”, ordenara Quinzinho à senhora do estabelecimento. A mulher queria saber a finalidade da grande quantidade. “Sua mãe fará doce de uva?”. O menino assentiu. Depois, perguntara pela cesta. Naqueles tempos não existiam sacolas plásticas. Os consumidores eram obrigados a portar de casa o recipiente para acomodar as compras durante o trajeto de volta. Joaquim disse esquecera e que voltaria em breve para consumar a compra. “Traga uma das grandes”, orientou a balconista, sabendo que seria uma compra e tanto. Quiçá, liquidaria o estoque do fruto da venda.
Em alguns minutos ele retornava ao local com uma cesta de palhas de tamanho quase equivalente ao seu. A senhora do estabelecimento enchera o recipiente e Quinzinho subia a ladeira arrastando cachos e mais cachos da fruta predileta com dificuldade e esforço. Encontrou um cantinho no rancho nos fundos da casa e iniciara a comilança, silencioso. Com língua e dentes arroxeados, mais do que satisfeito, minutos depois, percebera que a quantidade do cesto praticamente não alterara. Resolvera ser gentil com os primos mais jovens, que eram forçados a irem até a casa de parentes para não fazerem nada durante os dias santos.
Discretamente, chamara um a um. Instantes após, eram seis ou sete pequenos, todos mais jovens que Quim, ao redor do cesto cheio. O rapaz poderia não saber o valor do dinheiro na época. Mas certamente tinha noção, dado o volume no cesto, que cometera um furto e tanto. Por isso, controlava os priminhos para que não deixassem o local com indícios do consumo de uvas. Muito menos com o fruto em mãos. Pedia para que não fizessem barulho.
Não adiantou muito e a pequena Dorotéia aparecera na sala com uma baguinha na palma da mão, causando espanto aos adultos. Dona Diva, mãe de Joaquim, questionara onde Téia encontrara uvas. A minúscula dedo de seta caguetara o primo. Enfurecida, a prever o meio em que o filho conseguira fundos para adquirir frutas, Diva partiu em busca do rapazinho. Deu de cara com a cesta ainda cheia e a molecada a correr. Joaquim permanecera. Imóvel, imaginava o que poderia lhe ocorrer.
Diva pegou o rapaz por uma das orelhas e levou-o até seu quarto. No recinto havia uma pequena janela para o quintal. Joaquim via a mãe em frente a um marmeleiro. A senhora escolhia uma das varinhas que cresciam na árvore. Selecionava uma poderosa e temida vara de marmelo. Artefato que ainda causa calafrios a alguns que hoje já cruzaram os 50 anos. De posse de uma que julgou melhor, voltou ao interior da residência.
Joaquim suava frio e engolia o choro. Diva aparecera na porta. Tomou o menino e colocou Joaquim de bruços na cama. Sem piedade, puniu o rapaz com golpes fortes da tal vara. A cada estocada, uma nova tira avermelhada emergira da pele clara das pernas do garoto. A senhora deve ter praticado o ato por não mais do que cinco minutos. Joaquim tinha a sensação que estava a receber os golpes por cinco horas.
Diva concluíra a punição exemplar. Esperava que depois daquela lição o filho jamais roubaria bolsas desavisadas e comeria uvas em dias sagrados. Quinzinho estava aos prantos. Magoado. Não lhe doíam as escoriações. Muito menos a vergonha que fatalmente sentiria nos próximos 10 dias, em que os vergões estariam expostos por conta das calças curtas, traje comum da época. O que causava enorme aperto no peito é que não conseguia entender como a mãe teve coragem de aplicar-lhe uma surra monumental daquelas. Em pleno dia santo.
Em seus tenros 10 anos, Joaquim não tinha conhecimento do fato. Na década, anos 50, a semana santa já tinha início no final da tarde de terça-feira. Adultos e idosos jejuavam de verdade. Apenas uma refeição por dia em que se consumia o mínimo. Em algumas casas, como a de Quinzinho, as obrigações eram exigidas dos mais jovens. As ruas ficavam vazias. As crianças não podiam brincar. Tédio geral entre a molecada. Ainda, a comunicação entre as pessoas era mínima. Leves e lentos acenos com as mãos e cabeça. Olhares limitados. As conversas tinham um tom quase inaudível e de parcas palavras.
Já na quinta-feira, faminto e entediado, Quim acordara com um desejo incontrolável de comer uvas. De família muito simples e jovial para o trabalho, não tinha um níquel sequer nos bolsos das calças curtas ou guardado em uma caixinha de papelão. Passará a manhã toda sonhando com cachos bem fornidos e repletos de bolinhas adocicadas. Resolvera então tomar uma cédula de uma bolsa desavisada ao alcance de seus olhinhos curiosos e mãos com dedos pequeninos.
Em vistoria pelo recinto, mirara a bolsa da Tia Zezé, que dera o ar da graça há poucos minutos. Foi aumentar o silencioso coro de orações. Sem nenhuma noção do valor de dinheiro, furtivamente abriu o objeto e puxara a primeira cédula à vista. Era uma nota de 20 cruzeiros. Que nos dias de hoje equivaleria algo superior a 100 reais. Partiu para um armazém nas cercanias que se gabava das melhores e mais doces frutas do vilarejo.
Na ponta dos pés e escorado no balcão, mostrou a nota e apontou para as frutas pequenas e rotundas. “Tudo de uvas, senhora”, ordenara Quinzinho à senhora do estabelecimento. A mulher queria saber a finalidade da grande quantidade. “Sua mãe fará doce de uva?”. O menino assentiu. Depois, perguntara pela cesta. Naqueles tempos não existiam sacolas plásticas. Os consumidores eram obrigados a portar de casa o recipiente para acomodar as compras durante o trajeto de volta. Joaquim disse esquecera e que voltaria em breve para consumar a compra. “Traga uma das grandes”, orientou a balconista, sabendo que seria uma compra e tanto. Quiçá, liquidaria o estoque do fruto da venda.
Em alguns minutos ele retornava ao local com uma cesta de palhas de tamanho quase equivalente ao seu. A senhora do estabelecimento enchera o recipiente e Quinzinho subia a ladeira arrastando cachos e mais cachos da fruta predileta com dificuldade e esforço. Encontrou um cantinho no rancho nos fundos da casa e iniciara a comilança, silencioso. Com língua e dentes arroxeados, mais do que satisfeito, minutos depois, percebera que a quantidade do cesto praticamente não alterara. Resolvera ser gentil com os primos mais jovens, que eram forçados a irem até a casa de parentes para não fazerem nada durante os dias santos.
Discretamente, chamara um a um. Instantes após, eram seis ou sete pequenos, todos mais jovens que Quim, ao redor do cesto cheio. O rapaz poderia não saber o valor do dinheiro na época. Mas certamente tinha noção, dado o volume no cesto, que cometera um furto e tanto. Por isso, controlava os priminhos para que não deixassem o local com indícios do consumo de uvas. Muito menos com o fruto em mãos. Pedia para que não fizessem barulho.
Não adiantou muito e a pequena Dorotéia aparecera na sala com uma baguinha na palma da mão, causando espanto aos adultos. Dona Diva, mãe de Joaquim, questionara onde Téia encontrara uvas. A minúscula dedo de seta caguetara o primo. Enfurecida, a prever o meio em que o filho conseguira fundos para adquirir frutas, Diva partiu em busca do rapazinho. Deu de cara com a cesta ainda cheia e a molecada a correr. Joaquim permanecera. Imóvel, imaginava o que poderia lhe ocorrer.
Diva pegou o rapaz por uma das orelhas e levou-o até seu quarto. No recinto havia uma pequena janela para o quintal. Joaquim via a mãe em frente a um marmeleiro. A senhora escolhia uma das varinhas que cresciam na árvore. Selecionava uma poderosa e temida vara de marmelo. Artefato que ainda causa calafrios a alguns que hoje já cruzaram os 50 anos. De posse de uma que julgou melhor, voltou ao interior da residência.
Joaquim suava frio e engolia o choro. Diva aparecera na porta. Tomou o menino e colocou Joaquim de bruços na cama. Sem piedade, puniu o rapaz com golpes fortes da tal vara. A cada estocada, uma nova tira avermelhada emergira da pele clara das pernas do garoto. A senhora deve ter praticado o ato por não mais do que cinco minutos. Joaquim tinha a sensação que estava a receber os golpes por cinco horas.
Diva concluíra a punição exemplar. Esperava que depois daquela lição o filho jamais roubaria bolsas desavisadas e comeria uvas em dias sagrados. Quinzinho estava aos prantos. Magoado. Não lhe doíam as escoriações. Muito menos a vergonha que fatalmente sentiria nos próximos 10 dias, em que os vergões estariam expostos por conta das calças curtas, traje comum da época. O que causava enorme aperto no peito é que não conseguia entender como a mãe teve coragem de aplicar-lhe uma surra monumental daquelas. Em pleno dia santo.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Xavecos do sexagenário
Pelos mesmos motivos de Lourival (conheça o caso), chegou a vez em que Anderson cortou relações com o festivo vovô. Os presentes eram realmente muito bons. Especialmente para a temporada de frio com o guarda-roupa pouco sortido e de escassas opções para arrefecer as temperaturas em queda do lado de fora. Porém, era difícil conviver com as piadinhas dos colegas de trabalho que testemunhavam os apuros que o sexagenário tarado impunha ao moço. (Não entendeu? Clique aqui.)
Visível era o alívio de Anderson após o basta. Trabalhava até melhor, comentou o colega da escrivaninha da frente. Pobre, velhinho. Perdera mais uma ovelhinha de seu rebanho. Mas não se deixava abalar. Logo retomaria a busca para substituir o rapaz que deixara espaço no estábulo. Partiu para cima de outros funcionários do periódico em que costuma publicar fotografias de amigos “pagantes” e figurinhas “mordíveis”. Os arredores da máquina de cafezinhos voltaram a se tornar território perigosos ao pessoal do sexo masculino.
E foi por lá que o trabalhador do recursos humanos sofreu um tremendo golpe. Quieto, enquanto misturava o leite em pó ao café, viu se aproximar o galante idoso. Tentou fazer de conta que sequer havia percebido o titio na área. Mas o outro não se fez de rogado. Elogiou os cachos capilares do guri. Corado, deu as costas como se nada tivesse ouvido. O festivo imaginava que daqueles arredores poderia angariar algo novo para sua festiva rotina. Tentou um alemão que toma conta das finanças da empresas também. O “pedaço de mau caminho” proferido não surtiu o efeito esperado.
E assim era a rotina do sexagenário quando ia levar suas anotações ao periódico dito maior do sul destas bandas. O velhinho atirava para todos os lados. Diziam até que o desejo era tanto que vez ou outra tascava palavras em mulheres. Respirar já bastava para entrar na mira. E foi numa dessas que Daniel foi surpreendido.
Num dos estreitos corredores do veículo, enquanto rumava para o setor em que um dos colegas de trabalho teria mais informações de um caso em que foi testemunha, deparou-se com o vovô de porte de uma maleta 007 que deveria esconder muita sordidez. O velhinho o encurralou e o interpelou. “Ei, menino. Posso te mostrar uma coisa?”, questionou.
O rapaz fez de conta que era surdo de nascença, mas pouco adiantou. O idoso de gravata borboleta foi logo arrumando o corpo para revelar algo. “Agora não posso. Estou com muita pressa, senhor”, quis despistar. E o vovô ficou por ali, de calças arriadas e choroso com mais uma tentativa frustrada.
Visível era o alívio de Anderson após o basta. Trabalhava até melhor, comentou o colega da escrivaninha da frente. Pobre, velhinho. Perdera mais uma ovelhinha de seu rebanho. Mas não se deixava abalar. Logo retomaria a busca para substituir o rapaz que deixara espaço no estábulo. Partiu para cima de outros funcionários do periódico em que costuma publicar fotografias de amigos “pagantes” e figurinhas “mordíveis”. Os arredores da máquina de cafezinhos voltaram a se tornar território perigosos ao pessoal do sexo masculino.
E foi por lá que o trabalhador do recursos humanos sofreu um tremendo golpe. Quieto, enquanto misturava o leite em pó ao café, viu se aproximar o galante idoso. Tentou fazer de conta que sequer havia percebido o titio na área. Mas o outro não se fez de rogado. Elogiou os cachos capilares do guri. Corado, deu as costas como se nada tivesse ouvido. O festivo imaginava que daqueles arredores poderia angariar algo novo para sua festiva rotina. Tentou um alemão que toma conta das finanças da empresas também. O “pedaço de mau caminho” proferido não surtiu o efeito esperado.
E assim era a rotina do sexagenário quando ia levar suas anotações ao periódico dito maior do sul destas bandas. O velhinho atirava para todos os lados. Diziam até que o desejo era tanto que vez ou outra tascava palavras em mulheres. Respirar já bastava para entrar na mira. E foi numa dessas que Daniel foi surpreendido.
Num dos estreitos corredores do veículo, enquanto rumava para o setor em que um dos colegas de trabalho teria mais informações de um caso em que foi testemunha, deparou-se com o vovô de porte de uma maleta 007 que deveria esconder muita sordidez. O velhinho o encurralou e o interpelou. “Ei, menino. Posso te mostrar uma coisa?”, questionou.
O rapaz fez de conta que era surdo de nascença, mas pouco adiantou. O idoso de gravata borboleta foi logo arrumando o corpo para revelar algo. “Agora não posso. Estou com muita pressa, senhor”, quis despistar. E o vovô ficou por ali, de calças arriadas e choroso com mais uma tentativa frustrada.
terça-feira, 16 de junho de 2009
O desejo reprimido da Tia Soraia
Bastava que os primeiros relatos dos tempos passados ganhassem a conversa para saber que tivera uma infância repleta de acontecimentos marcantes. Passado mais de meio século desde seu nascimento, Tia Soraia ostenta histórias e tanto dos tempos de menina, no interior do interior catarina. Hoje a tia vive em metrópole, em outro estado. Mas jamais se furta de contar aos familiares e chegados a infância modesta. Porém sadia e divertida.
Das mais velhas de uma verdadeira ninhada, teve que aprender desde cedo a se virar sozinha. Enquanto a maioria das meninas da mesma idade voltavam seus pensamentos para as matinês, aos rapazes e domingueiras na praça, a jovem Soraia estudava com afinco, costurava para fora e ainda reforçava o minguado caixa com aulas de bandolim, instrumento de sonoridade muito apreciado naqueles idos. Assim, ficara sem tempo para curtir a tenra idade.
Mais velha, deixara a região natal e fora para outro lugar. Não apenas para cursar o ensino superior. Queria ver coisas que antes seu mundinho a privara. Entre aulas e trabalhos acadêmicos, encontra Antognio. Conheceram-se, pegaram nas respectivas mãos e, quando a relação estava encaminhada, trouxera o carcamano para aprovação do genitor. Contra a vontade do pai, escolhera um descendente de italianos para se esposar. Como a moça já tinha praticamente a vida feita, fez pouco caso. Deu a benção e chispou os pombinhos.
Unidos, não demorou para que Tia Soraia embuchasse. Os rebentos vieram um após o outro. Ela, uma de uma ninhada, teve de passar a zelar pela própria. Os filhos cresceram, ganharam o mundo e, enfim, Soraia pode realizar suas vontades mais secretas. Umas tantas um pouco descabidas, por conta da idade. Mas dava de ombros e decidiu que não poderia mais esperar por experimentar o que a vida tinha, ou teve, a lhe oferecer. Foi numa viagem com um casal de amigos que provara a cigarrilha psicotrópica.
Estavam numa simpática pousada de uma praia paranaense. Após o churrasquinho, enquanto lavava a louça com a amiga, sentiu um cheiro que lhe remetia à juventude e suas privações. Averiguou e encontrou marido e o da outra num fumacê. Sem pedir permissão, arrancou o objeto cilíndrico da mão do cara, cheirou e experimentou, após mais de 50 anos de aguardo. Na roda, quando o sujeito ao lado estendia a mão para dar continuidade ao ritual, era advertido com um tapa e um “espera que ainda não deu nada”.
Desistiram de Soraia e foram apreciar outro longe de seus olhares. A tia dera fim no fumacento e ficara chateada com a experiência. Solitária, da sacada olhava para o céu desiludida. Pensava que veria coisas absurdas, como descreviam os amigos de colégio, décadas atrás. Imaginava que se sentiria diferente. Que de nada adiantara aquele desejo reprimido de tantos anos. Foi quando avistou algo entre as estrelas e chamou a atenção dos demais. “Antognio, vem ver. Venha logo”, brandiu.
Na acreditava que aquilo não tinha sido previsto pelas estações espaciais do mundo. Vinte anos depois, o cometa Halley dera novo ar da graça. E foi dormir menos decepcionada já que o “barato” não batera nela.
Das mais velhas de uma verdadeira ninhada, teve que aprender desde cedo a se virar sozinha. Enquanto a maioria das meninas da mesma idade voltavam seus pensamentos para as matinês, aos rapazes e domingueiras na praça, a jovem Soraia estudava com afinco, costurava para fora e ainda reforçava o minguado caixa com aulas de bandolim, instrumento de sonoridade muito apreciado naqueles idos. Assim, ficara sem tempo para curtir a tenra idade.
Mais velha, deixara a região natal e fora para outro lugar. Não apenas para cursar o ensino superior. Queria ver coisas que antes seu mundinho a privara. Entre aulas e trabalhos acadêmicos, encontra Antognio. Conheceram-se, pegaram nas respectivas mãos e, quando a relação estava encaminhada, trouxera o carcamano para aprovação do genitor. Contra a vontade do pai, escolhera um descendente de italianos para se esposar. Como a moça já tinha praticamente a vida feita, fez pouco caso. Deu a benção e chispou os pombinhos.
Unidos, não demorou para que Tia Soraia embuchasse. Os rebentos vieram um após o outro. Ela, uma de uma ninhada, teve de passar a zelar pela própria. Os filhos cresceram, ganharam o mundo e, enfim, Soraia pode realizar suas vontades mais secretas. Umas tantas um pouco descabidas, por conta da idade. Mas dava de ombros e decidiu que não poderia mais esperar por experimentar o que a vida tinha, ou teve, a lhe oferecer. Foi numa viagem com um casal de amigos que provara a cigarrilha psicotrópica.
Estavam numa simpática pousada de uma praia paranaense. Após o churrasquinho, enquanto lavava a louça com a amiga, sentiu um cheiro que lhe remetia à juventude e suas privações. Averiguou e encontrou marido e o da outra num fumacê. Sem pedir permissão, arrancou o objeto cilíndrico da mão do cara, cheirou e experimentou, após mais de 50 anos de aguardo. Na roda, quando o sujeito ao lado estendia a mão para dar continuidade ao ritual, era advertido com um tapa e um “espera que ainda não deu nada”.
Desistiram de Soraia e foram apreciar outro longe de seus olhares. A tia dera fim no fumacento e ficara chateada com a experiência. Solitária, da sacada olhava para o céu desiludida. Pensava que veria coisas absurdas, como descreviam os amigos de colégio, décadas atrás. Imaginava que se sentiria diferente. Que de nada adiantara aquele desejo reprimido de tantos anos. Foi quando avistou algo entre as estrelas e chamou a atenção dos demais. “Antognio, vem ver. Venha logo”, brandiu.
Na acreditava que aquilo não tinha sido previsto pelas estações espaciais do mundo. Vinte anos depois, o cometa Halley dera novo ar da graça. E foi dormir menos decepcionada já que o “barato” não batera nela.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Sexagenário faz sua segunda vítima
Essa cai bem para a época: amor em evidência, Dia dos Namorados.
Preocupado com que andava a escutar pelos corredores e ao redor da máquina de cafezinho da empresa, Lourival decidiu dar um basta na promíscua e furtiva relação (de troca) que mantinha com o galante sexagenário. Os presentes eram bons, é verdade. Mas sentia que sua honradez era dissipada dado os comentários que escutava aqui e ali. As declarações públicas estavam cada vez mais frequentes e incomodam o trabalhador de máquina fotográfica em punho.
Sem que os colegas percebessem, após uma das visitinhas do vovô taradão, deixou a sala e foi ao encontro do idoso. Em frente ao elevador, rapidamente, revelara o desconforto, agradecera os regalos e tocou o pé nas nádegas do festivo velhinho. Era aparente a tristeza do vôzinho nas semanas seguintes. Nas visitas ao periódico, falava ao telefone combinando festas e finais de semanas com quem costuma brindar com fotos estampadas. Falava em voz alta. Que era para o desgraçado ter a impressão de que o “não” nem o abalara.
Fiel seguidor das notícias que rondavam aquela relação um tanto bizarra, Anderson jamais imaginara um dia passar por situação semelhante. Não pense que foi ao acaso. Partiu dele o primeiro contato com o sexagenário. Estava de olho nos presentes que o idoso distribuía a quem “lhe fizesse bem”. Com orçamento curto e a temperatura a baixar, encarou a possibilidade de passar um inverno mais quente e confortável. Roupas novas.
Não demorou muito. Esses dias apareceu com uma bela jaqueta de couro. Feliz da vida. Se gosta dessa relação, não transparece. Mas é inegável que Anderson possui melhor habilidade de negociação que Lourival.
Preocupado com que andava a escutar pelos corredores e ao redor da máquina de cafezinho da empresa, Lourival decidiu dar um basta na promíscua e furtiva relação (de troca) que mantinha com o galante sexagenário. Os presentes eram bons, é verdade. Mas sentia que sua honradez era dissipada dado os comentários que escutava aqui e ali. As declarações públicas estavam cada vez mais frequentes e incomodam o trabalhador de máquina fotográfica em punho.
Sem que os colegas percebessem, após uma das visitinhas do vovô taradão, deixou a sala e foi ao encontro do idoso. Em frente ao elevador, rapidamente, revelara o desconforto, agradecera os regalos e tocou o pé nas nádegas do festivo velhinho. Era aparente a tristeza do vôzinho nas semanas seguintes. Nas visitas ao periódico, falava ao telefone combinando festas e finais de semanas com quem costuma brindar com fotos estampadas. Falava em voz alta. Que era para o desgraçado ter a impressão de que o “não” nem o abalara.
Fiel seguidor das notícias que rondavam aquela relação um tanto bizarra, Anderson jamais imaginara um dia passar por situação semelhante. Não pense que foi ao acaso. Partiu dele o primeiro contato com o sexagenário. Estava de olho nos presentes que o idoso distribuía a quem “lhe fizesse bem”. Com orçamento curto e a temperatura a baixar, encarou a possibilidade de passar um inverno mais quente e confortável. Roupas novas.
Não demorou muito. Esses dias apareceu com uma bela jaqueta de couro. Feliz da vida. Se gosta dessa relação, não transparece. Mas é inegável que Anderson possui melhor habilidade de negociação que Lourival.
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